As primeiras rodadas do Brasileirão Feminino de 2026 já deixam uma impressão difícil de ignorar: o futebol feminino brasileiro começa a importar, também, aquilo que o masculino tem de pior. A troca precoce de treinadores, prática tão comum entre os homens, passa a aparecer com naturalidade cada vez maior também na modalidade feminina.
Talvez porque cada vez mais existam equipes femininas, nos clubes que se destacam no masculino, até ou apenas por exigência dos regulamentos das competições.
O caso do Grêmio é emblemático. Depois de três derrotas seguidas, o clube optou por encerrar o trabalho de Cyro Leães e apostar em Jéssica de Lima. Antes disso, o Corinthians já havia feito movimento parecido ao trocar Lucas Piccinato por Emily Lima logo no início da competição.
Não se trata apenas de decisões isoladas. O que se desenha é um padrão. É um padrão preocupante.
Durante muito tempo, o futebol feminino foi obrigado a crescer com menos estrutura, menos investimento e menos visibilidade, até porque era exigência para os times masculinos poderem participar de competições..
Em meio a tantas carências, ao menos havia, em alguns contextos, maior compreensão de que projetos precisavam de tempo para amadurecer. Agora, com o avanço do feminino, cresce também a cobrança. Isso é natural.
O problema é quando a cobrança vem acompanhada da impaciência crônica que há anos domina o futebol masculino brasileiro.
O Brasileirão Feminino tem menos jogos, calendário mais curto e margem de recuperação mais apertada. Justamente por isso, seria razoável imaginar que o planejamento, efetuado antes do seu início, tivesse ainda mais valor.
Mas o que se vê é o contrário: a ansiedade por respostas imediatas transforma o início da competição em tribunal. Bastam poucas rodadas para que se conclua que um trabalho fracassou.
Essa cultura da troca rápida sempre se vende como sinal de ambição. Na prática, muitas vezes revela apenas desorganização, falta de convicção e necessidade de oferecer uma resposta instantânea ao ambiente externo. Muda-se o comando, preserva-se o discurso, adia-se a discussão mais profunda. O técnico sai, a estrutura permanece intocada, e o problema ganha novo prazo antes de reaparecer.
Talvez seja esse o ponto mais delicado. O feminino precisa, sim, de mais investimento, mais exigência, mais visibilidade e mais competitividade. Mas não precisa copiar a pressa descontrolada que tantas vezes impede o futebol masculino de construir trabalhos sólidos. Crescer não deveria significar repetir erros antigos com nova embalagem.
Se as trocas precoces já começam a se acumular nas primeiras rodadas, o alerta está dado. O futebol feminino brasileiro avança em muitos aspectos, mas precisa decidir que tipo de cultura quer consolidar. Porque profissionalizar não é apenas cobrar mais. É também saber sustentar ideias quando o caminho ainda está no começo