Em 1997, em Brasília, um indígena Pataxó foi queimado vivo enquanto dormia numa parada de ônibus. Galdino Jesus dos Santos não foi vítima de um “excesso juvenil”, como se tentou narrar à época. Foi alvo de um ato de tortura seguido de morte, praticado por jovens de elite — entre eles, o filho de um magistrado e o filho de um diplomata. Não se tratava apenas de indivíduos, mas de uma constelação de poder em ação.
A resposta do Estado foi exemplar apenas na aparência. Houve condenação formal, mas as penas foram rapidamente atenuadas, convertidas, diluídas. Nenhuma proporcionalidade entre o crime — brutal, deliberado, letal — e a punição aplicada. A mensagem foi clara: certos corpos importam menos; certos sobrenomes protegem mais. A justiça funcionou, mas em baixa voltagem, cuidadosa para não ferir o futuro promissor de jovens “bem-nascidos”.
Décadas depois, o roteiro se repete. No sul do país, cães são torturados. A violência, novamente, não é acidental nem impulsiva: é registrada, relatada, quase exibida. E, mais uma vez, entra em cena a engrenagem familiar. Advogados aparecem, notas são redigidas, versões são ensaiadas. O objetivo não é enfrentar o horror do ato, mas administrar seus efeitos públicos.
Aqui está o ponto político central: essas violências não sobrevivem por falha ocasional do sistema, mas porque contam com instituições informais de proteção — a família, o prestígio social, o capital jurídico e simbólico. Quando a exposição ameaça, os filhos são retirados do palco: viagens, férias, Disney. Não como punição, mas como estratégia. Não para responsabilizar, mas para preservar.
Enquanto isso, a vítima — ontem um homem indígena em situação de vulnerabilidade, hoje um animal indefeso — permanece fora do cálculo moral. O trauma que importa não é o causado, mas o de “virar assunto nas redes sociais”. A assimetria é obscena: crimes extremos, consequências mínimas; sofrimento real, silêncio estrutural.
O que esses episódios revelam não é um desvio individual, mas uma política não escrita da impunidade seletiva. Uma pedagogia social perversa, que ensina cedo que a violência pode ser negociável quando se nasce do lado certo da balança. E que, no Brasil, a justiça não é cega — ela reconhece muito bem quem está diante dela.
