João Pessoa, terça-feira, 13 de outubro de 2026
Tony Bellotto rejeita a ideia de lutar contra o câncer e surpreende
13/10/2026

Gente, eu estava aqui em Sintra, tentando organizar minha vida entre uma bica, o céu nublado e uma agenda que parece ter sido escrita por alguém que me odeia, quando voltei a uma entrevista de Tony Bellotto que merece muito mais atenção. E olha que eu, que falo pelos cotovelos, fiquei pensando no que esse homem disse. O guitarrista dos Titãs, que enfrenta um câncer de pâncreas diagnosticado em 2025, apresentou uma maneira muito particular de lidar com a doença. E confesso que a reflexão me pegou.

Aos 66 anos, Tony contou ao jornalista Matheus Leitão, no programa Que Dia, do Metrópoles, que continua convivendo com o diagnóstico, mesmo depois de passar por uma cirurgia para retirar o tumor e enfrentar um tratamento delicado. A recuperação não foi simples. Ele perdeu peso, precisou interromper compromissos profissionais e ainda trabalha para recuperar sua condição física. Mas o que chamou minha atenção foi a maneira como ele decidiu encarar tudo isso.

Segurem essa informação, minhas queridas. Tony, que se declara ateu e estudou zen-budismo na adolescência, questiona a expressão tão utilizada quando alguém recebe um diagnóstico de câncer: a ideia de que é preciso entrar em guerra contra a doença. Pacifista, ele prefere pensar numa espécie de negociação, numa convivência possível com aquilo que está enfrentando. É uma reflexão pessoal sobre o adoecimento, sem qualquer pretensão de substituir os tratamentos médicos. E, convenhamos, ouvir um roqueiro falar de paz em vez de guerra tem uma força danada.

O guitarrista também falou sobre a importância de Branco Mello, seu companheiro de Titãs, que enfrentou um câncer de garganta. A experiência do amigo ganhou outro significado depois que Tony recebeu o próprio diagnóstico. São dois músicos que dividiram palcos, gravações e décadas de história do rock brasileiro e que também passaram a compartilhar experiências relacionadas ao tratamento de doenças graves.

Desde que descobriu o câncer, em março de 2025, Tony precisou reorganizar a própria rotina. Afastou-se temporariamente dos palcos, passou por cirurgia e enfrentou uma recuperação que descreveu como difícil. Aos poucos, retomou atividades profissionais, incluindo apresentações musicais e a escrita, enquanto segue sob acompanhamento médico. Ele não anunciou estar curado, e esse detalhe precisa ser respeitado.

Agora, vou dizer uma coisa. Vivemos numa época em que até o sofrimento precisa vir embalado numa frase motivacional, com trilha sonora emocionante e legenda de superação. Tony fez uma escolha diferente. Falou sobre o medo, a dificuldade e a necessidade de aprender a conviver com uma realidade que não escolheu. Sem transformar a própria experiência numa obrigação de parecer forte o tempo inteiro.

E talvez seja justamente aí que esteja a declaração mais interessante dessa entrevista. O homem que passou décadas fazendo barulho com uma guitarra agora provoca uma reflexão sobre a maneira como falamos de uma doença grave.

Eu continuo aqui em Sintra, com meus compromissos atrasados e a cabeça naquela conversa. Porque Tony Bellotto levantou uma questão que ultrapassa o universo dos Titãs: será que toda pessoa que enfrenta um câncer precisa ser chamada de guerreira, mesmo quando ela própria prefere não enxergar sua vida como uma batalha?

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