
Durante décadas, uma frase circulou entre cronistas esportivos e torcedores brasileiros sempre que se discutia a evolução do futebol mundial: “Todo mundo é japonês”. A expressão, hoje praticamente em desuso, não tinha relação com a qualidade da seleção japonesa. Era uma forma de dizer que o futebol havia se nivelado, que as diferenças entre as equipes diminuíam a cada Copa do Mundo e que qualquer adversário podia enfrentar as grandes potências de igual para igual.
O curioso é que, depois da dramática vitória brasileira por 2 a 1 sobre o Japão, a velha frase parece ganhar um novo significado. Sim, o futebol está muito mais equilibrado. Sim, o Japão cresceu, tornou-se uma seleção respeitada e passou a acreditar que podia eliminar o Brasil. Mas, quando a bola queimou nos minutos finais de uma partida de Copa do Mundo, reapareceu um velho personagem da história do futebol: a camisa do Brasil.
A confiança japonesa antes da partida não era mero discurso para entrevistas. Parte da imprensa de Tóquio e dos torcedores realmente acreditava que a classificação era perfeitamente possível. O sentimento ganhou força depois da vitória sobre o Brasil em um amistoso disputado no ano passado, embora aquela seleção brasileira estivesse bastante descaracterizada, com reservas e vários jogadores que sequer chegaram à Copa do Mundo.
Depois da eliminação, o tom mudou. O Tokyo Sports (imagem acima) estampou a luta da seleção japonesa e destacou que o mundo reconheceu o desempenho da equipe. Entre as manchetes e comentários repercutidos estavam frases como “Tenham orgulho” e “A defesa de Zion Suzuki ficará para a história”, numa demonstração de que, apesar da derrota, a atuação japonesa foi valorizada internacionalmente.
Jornais pelo mundo
Se no Japão prevaleceram o orgulho e a frustração, no restante do mundo o sentimento foi de reencontro com uma Seleção Brasileira capaz de decidir grandes jogos. A imprensa internacional voltou a tratar o Brasil como protagonista. O francês L’Équipe classificou a vitória como “épica”. O espanhol Marca exaltou a classificação brasileira. O alemão Bild destacou o brilho de Vinicius Júnior. Em Portugal, A Bola atribuiu a virada às mudanças promovidas por Carlo Ancelotti, avaliação compartilhada também pelo norte-americano The Athletic.
A repercussão mostra que o Brasil continua sendo julgado por um padrão diferente. Nenhuma seleção recebe tantas cobranças quando joga mal, justamente porque nenhuma outra construiu uma história tão rica em talento, criatividade e títulos mundiais. Quando vence de forma dramática, como aconteceu diante do Japão, a reação também é proporcional: o mundo volta a olhar para a Seleção com respeito.
Talvez a velha frase ainda faça sentido. O futebol realmente se igualou e qualquer seleção pode desafiar uma potência – a Alemanha, eliminada pelo Paraguai, que o diga. Mas a Copa do Mundo lembrou que existe uma diferença entre enfrentar o Brasil e eliminar o Brasil. Todo mundo pode até ter virado japonês. O Brasil, porém, continua sendo o Brasil.