Sobre ser você mesma, inteira
23/12/2025

Já parou para pensar em quantas camadas uma relação íntima pode ter? Às vezes, por trás do desejo, moram histórias silenciadas — histórias como a que uma leitora compartilhou conosco.

Ela conta que, durante o casamento, seu parceiro só queria fazer sexo imaginando que ela era outra pessoa. Chamava-a por outro nome, criava uma fantasia que a excluía por completo. No início, ela até tentou entrar na brincadeira, pensar que era algo passageiro, um fetiche a mais. Mas com o tempo, o cansaço bateu. “Eu só queria ser eu mesma”, ela disse. “Cheguei à conclusão de que ele usava meu corpo para imaginar outra mulher.”

É difícil não sentir o peso dessa revelação. A intimidade, quando genuína, é um espaço de encontro. De reconhecimento. De troca. E quando um dos lados deixa de existir ali — substituído por um personagem —, algo fundamental se rompe.

Não se trata de criticar fantasias ou jogos a dois, quando combinados com respeito e consentimento. A questão aqui é mais profunda: o que acontece quando a fantasia deixa de ser um jogo e vira uma negação do outro?

A leitora tocou em algo crucial: a diferença entre explorar desejos juntos e ser reduzido a um instrumento para a realização do desejo alheio. No primeiro caso, há parceria, mesmo na imaginação. No segundo, há solidão — uma solidão disfarçada de proximidade.

Sexualidade saudável acolhe, inclui, vê. Não apaga. Não substitui. Quando alguém precisa transformar você em outra pessoa para desejar você, é possível que o desejo nunca tenha sido por quem você é — e isso machuca, porque nos ensinam que amor e desejo andam de mãos dadas com o ser visto.

Talvez a história dessa leitora ajude outras pessoas a nomearem sentimentos parecidos. A perceberem que não é “frescura” querer ser o sujeito — e não o objeto — da própria cena íntima. Que é legítimo querer ser amado e desejado na sua inteireza, com seu nome, seu corpo, sua história.

À nossa leitora, fica o reconhecimento da sua coragem em perceber seu cansaço, em priorizar o desejo de ser si mesma. E a todos que se identificam: escutem esse incômodo. Ele muitas vezes é a voz do seu próprio respeito, lembrando que você merece mais do que ser um papel em uma peça que não é sua.

No fim, a intimidade que vale a pena é aquela em que podemos tirar todas as máscaras — e ainda assim ser abraçados.

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Sem Vergonha
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Essa não é uma coluna pornográfica – longe disso. O casal João e Maria vai falar falar sobre sexo com respeito, leveza e sem rodeios, abordando os temas que fazem parte da vida de todas as pessoas, casais, homens e mulheres. Escreva pra nós: redacao@onorteonline.com