
Vou na contramão da onda de desconfiança que recebeu a contratação de Clarence Seedorf pelo Corinthians. Sou favorável à aposta. Há riscos evidentes, mas considero precipitado tratar sua chegada como um fracasso anunciado. O holandês ainda nem começou a trabalhar e já enfrenta um julgamento que deveria depender, principalmente, do que conseguir apresentar em campo o.
O argumento mais repetido pelos críticos é verdadeiro: Seedorf está há sete anos sem comandar uma equipe. Seu último trabalho foi na seleção de Camarões, encerrado em julho de 2019. É uma ausência significativa, que merece ser considerada. Sua carreira como treinador também está longe do brilho que teve como jogador. Reconhecer essas limitações, porém, não obriga ninguém a concluir que ele esteja condenado a fracassar.
Estamos falando de um futebolista excepcional, quatro vezes campeão da Liga dos Campeões, com uma passagem marcante pelo Botafogo, onde conquistou o Campeonato Carioca de 2013. Ser um grande jogador não garante competência como treinador. Mas sua experiência, sua inteligência dentro de campo e seu conhecimento do jogo também não podem ser simplesmente apagados da discussão. Há uma bagagem ali que merece respeito.
O Fluminense oferece um exemplo de como o futebol desmoraliza certezas. Depois da saída do argentino Luis Zubeldía, o auxiliar permanente Marcão assumiu o comando e acabou efetivado com a melhora dos resultados. Quem o colocaria no topo de uma lista de treinadores capazes de transformar o time? Marcão conhece o clube, encontrou respostas e fez a equipe jogar. Seu trabalho lembra que prestígio no mercado e capacidade de fazer um grupo render nem sempre caminham juntos.
Isso não significa que Seedorf repetirá a trajetória de Marcão. Significa que o sucesso de um treinador depende de oportunidade, ambiente, relacionamento com os jogadores e condições de trabalho. O futebol tem variáveis demais para caber numa sentença decretada antes do primeiro treino.
E há uma questão incontornável: o Corinthians já estava em crise antes de procurar Seedorf. O clube convive com dificuldades financeiras, atrasos recorrentes e pendências com o elenco. Os salários de setembro foram pagos em 8 de outubro, mas ainda havia direitos de imagem, férias e premiações em aberto. Nesse cenário, trocar o treinador está longe de resolver tudo. A diretoria precisa assumir a responsabilidade que lhe cabe.
A gigantesca torcida continua sendo a força mais impressionante do Corinthians. É por ela que a chegada de Seedorf merece alguma esperança, além das cobranças inevitáveis. Eu prefiro dar à aposta a oportunidade de funcionar. Se dará certo, o campo responderá. O que não faz sentido é colocar na conta de quem está chegando o fracasso de uma estrutura que já vinha falhando.