“Era um príncipe idolatrado que nunca foi coroado rei”, diz a publicação europeia

No momento em que o Brasil discute se ainda faz sentido convocar Neymar para a seleção de Carlo Ancelotti, a imagem do jogador fora do país parece caminhar na direção oposta da idolatria que um dia foi unanimidade. Seu nome continua grande, global, reconhecido em qualquer canto do planeta, mas o respeito que costumava acompanhar esse status já não é mais o mesmo. E a prova disso está longe daqui, em uma capa de revista publicada na Finlândia.
A tradicional revista esportiva Urheilulehti estampou Neymar com uma chamada que não deixa margem para suavização. Em letras grandes, a palavra “TUHLAAJAPOIKA”, que pode ser traduzida como “filho pródigo”, aparece como síntese da ideia central. Não no sentido bíblico de redenção, mas no de alguém que teve tudo nas mãos – talento, projeção, expectativa – e desperdiçou parte desse potencial ao longo do caminho.
Abaixo, o texto aprofunda o tom crítico: “oli palvottu prinssi, jota ei koskaan kruunattu kuninkaaksi. miksi hänestä tulikin vitsi?”. Em português, a tradução é direta e incômoda: “Era um príncipe idolatrado que nunca foi coroado rei. Por que ele acabou virando uma piada?”. A escolha da palavra “vitsi” não é casual. Em finlandês, ela significa “piada” ou “brincadeira”, mas, no contexto, carrega um peso maior, sugerindo alguém que deixou de ser levado plenamente a sério no cenário em que deveria dominar.
O retrato que a revista faz não é exatamente novo, mas chama atenção pela frieza. Neymar aparece como o “prinssi”, o príncipe que o mundo do futebol adotou como herdeiro natural de uma linhagem histórica do Brasil. Durante anos, foi ele quem carregou a expectativa de ocupar o trono deixado por Pelé, Ronaldo e Ronaldinho, de se tornar o rosto de uma nova era. O problema é que, aos olhos de muitos, essa coroação nunca aconteceu.
E, no futebol europeu, onde a narrativa costuma ser tão importante quanto os números, isso pesa. Neymar segue sendo um jogador talentoso, capaz de decidir partidas, dono de uma carreira relevante, mas acabou envolvido por uma percepção que mistura frustração e desconfiança. As quedas em campo que viraram meme, os episódios fora das quatro linhas, a sensação de que poderia ter ido além e não foi. Tudo isso contribuiu para que a imagem do craque fosse sendo redesenhada, pouco a pouco, de ídolo absoluto para personagem contestado.
O mais significativo é que essa leitura não parte de um ambiente apaixonado ou rival. Vem de um país distante, sem qualquer ligação emocional com o futebol brasileiro. Quando uma publicação da Finlândia se sente confortável para resumir Neymar como alguém que virou motivo de piada, o que se vê não é uma crítica isolada, mas o reflexo de uma percepção que atravessou fronteiras.
E é justamente esse contraste que torna o debate brasileiro ainda mais delicado. Enquanto aqui se discute se Neymar ainda pode ser útil dentro de campo, lá fora a discussão parece já ter avançado para outro estágio: o de como um jogador com tanto talento e tanta expectativa acumulada acabou sendo visto, por parte do mundo, como alguém que não cumpriu o papel que lhe foi reservado.