Eram menos de oito da manhã e eu ainda estava no terraço do Cosme Velho, de chinelo e com a xícara na mão, quando minha amiga Gina me ligou em pânico total. “Kátia, o Ratinho foi lá de novo.” Não precisei nem perguntar o quê. Esse tom de voz específico, eu conheço. Significa babado vindo do SBT com cheirinho de polêmica velha requentada.
Carlos Massa, o Ratinho, usou a entrevista com um homem que afirma ser casado com sete mulheres, exibida em seu programa no SBT e publicada pelo Notícias da TV nesta quinta-feira, 7 de maio, para soltar uma série de comentários sobre a comunidade LGBTQIA+. O apresentador afirmou ficar “preocupado” ao ver dois homens se beijando na televisão, justificou que o sujeito “já saiu do mercado e tirou mais um” e ainda foi além: reclamou da presença de casais homoafetivos nas novelas, declarando que “no meu tempo, que o negócio funcionava, não tinha isso”.
O problema é que não é a primeira vez . Em março, Ratinho já havia gerado crise nacional ao fazer comentários transfóbicos sobre a deputada federal Erika Hilton ao vivo no mesmo programa, questionando sua ocupação na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e afirmando que “mulher tem que ter útero, menstruar”. Dias depois daquela polêmica, voltou ao ar sem pedir desculpas, declarou que recebeu apoio do público e garantiu que não pretende mudar seu comportamento. O SBT mandou nota dizendo que tudo foi “tratado internamente com todos os envolvidos e já solucionado”. Solucionado em março. Repetido em maio.
Nas redes, o trecho do programa correu pelo X e por outras plataformas em questão de horas. Internautas acusaram o contratado do SBT de preconceito e discurso homofóbico. “Devia ser extinto da TV”, escreveu o usuário Adilson Roberto. “Cresci vendo homem e mulher se beijando na televisão. Por que, então, não sou hétero?”, questionou um internauta identificado como Paulo. Will Moia foi mais cirúrgico: “Isso aí é apito de cachorro. Ele sabe que espalhando discurso homofóbico vai chamar atenção. Passou da hora da cúpula do SBT fazer algo.”
O SBT vai mandar a nota de praxe, Ratinho vai garantir que não muda, e eu aqui no Cosme Velho só me pergunto em voz alta, para quem quiser ouvir: qual é exatamente a quantidade de polêmicas que uma emissora precisa acumular antes de parar de chamar isso de assunto interno?