Que danado anda fazendo Mário de Andrade em Guarabira?!
Sim, Mário de Andrade da Revolução Modernista de 22, do herói sem nenhum caráter, Macunaíma, esse mesmo!
Pois é. Passa em Pedras de Fogo, em Entroncamento, depois aparece em Caiçara, noutro passo em Alagoa Grande, toma cana em Rio Tinto…
“Existe na Paraíba uma tipografia que estava na obrigação de ser célebre no país inteiro, se fôssemos patriotas de verdade” descobre ele. É a tipografia de Batista e Irmão, dedicada à publicação de folhetos de feira.
Está na Paraíba pra isso, para descobrir folhetos, coco de roda, caboclinhos, “gente predestinada para dançar e cantar. (…)”
Um velhote movia o torneio batendo no bombo e tirando a solfa.
Mas o ganzá era batido por um piazote que não teria seis anos, coisa admirável”.
Mário chega ao pátio do convento de São Francisco e pára assombrado. É ele quem diz: “eu já conhecia a igreja de fotografia, porém fotografia ruim, péssima como todas as que tiram os fotógrafos do Brasil. (…) Estou assombrado. Do Nordeste à Bahia não existe exterior de igreja mais bonito nem mais original que este. E mesmo creio que é a igreja mais graciosa do Brasil – uma gostosura que nem mesmo as sublimes mineirices do Aleijadinho vencem em graciosidade (…) Na frente de tudo o cruzeiro é um monolito formidável. Estou assombrado. A Paraíba possui um dos monumentos arquitetônicos mais perfeitos do Brasil. Eu não sabia… Poucos sabem”.
Isto foi em 1929, no tempo em que João Pessoa era presidente, “simpático, topetudo e falador”, é a impressão de Mário, que o visitou levado por José Américo e Ademar Vidal, anfitriões.
“Dia inteiro de trabalho. Assim mesmo almocei na casa do General Cavalcanti e jantei na Praia de Tambaú com a gente do José Américo. Depois fomos no Bairro de Cruz das Armas, de operários, ver um ensaio de Cabo-linhos. Formidável coreografia bruta. Mistura de instintos primitivos estonteantes com a monotonia formidável da gaita, bombo e ganzá. Coisas de africanos, ameríndios, incaica e russa. Saí besta da sala apertada do clube, um calorão pavoroso e o cheiro dos corpos suados quando na dança de despedida, dançando então todos foram tomados de um frenesi demoníaco espantoso. Saí besta, não tem dúvida”.
Mário sente um verdadeiro deslumbramento quando sobe a serra da Onça, a que vai de Alagoa Grande a Areia, paisagem que eu julgava perdida nas grutas do mundo, desbravada apenas por mim e por outros brejeiros como Pedro Gondim e Báu Montenegro.
Os olhos maravilhados de Mário, habituados com a Mantiqueira, com os Órgãos, com a Serra do Mar, também tocaram nos escondidos da Onça, da Paquivirã, do chapado europeu “em pleno verão tropical”. Se fosse menos bíblico, menos universal, Pedro Américo teria levado esta serra para a Europa na mesma medida em que trouxe os meios tons europeus para o Brasil. Verde opulento e bárbaro que encheu as vistas e os quadros dos pintores do conde Maurício, no Brasil.
O pior é que lendo, na Paraíba, este “Turista Aprendiz” de Mário de Andrade, tenho a sensação de que estou em São Paulo.
O poeta e folclorista fala de coisas que hoje nos parecem estrangeiras como Coco de Roda, Nau Catarineta, Caboclinhos, bombo, ganzá, manifestações vivas do povo que só existem nos livros de Mário. E, aqui, nos de Altimar Pimentel.
Onde estão o povo e os espetáculos “afro-ame-ríndios, incaicos e russos” tão ostensivos aos olhos do escritor paulista?