Há dores que não aparecem em raio-X. Cólicas que se instalam como se o corpo se revoltasse contra si mesmo, um peso no baixo ventre, uma irritação silenciosa que toma conta de tudo. O ciclo menstrual é, para muitas mulheres, um tempo de resistência. Resistir ao desconforto, ao cansaço, ao tabu — e ainda assim, sorrir e seguir produzindo.
Durante décadas, esse sofrimento foi tratado como frescura. “Toma um remédio e vai trabalhar”, diziam. Só que agora o tema começa a ser levado a sério. A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que permite até dois dias de afastamento remunerado por mês para quem sofre com sintomas debilitantes durante o ciclo menstrual. O texto, relatado pela deputada Professora Marcivania (PCdoB-AP), segue para o Senado e inclui trabalhadoras com carteira assinada, estagiárias e domésticas.
Mais do que um benefício, é um gesto de reconhecimento. Um Estado que entende que o corpo feminino não é uma máquina regular, que tem ritmos, limites e marés internas. Que há dias em que o corpo pede pausa — e tudo bem.
Talvez essa nova regra na CLT seja o primeiro passo para que o país discuta, com maturidade e respeito, o que significa ser mulher em um mundo que ainda cobra produtividade mesmo quando a dor aperta. A licença menstrual chega, enfim, como uma permissão legal para o que a natureza sempre soube: o descanso também é parte do ciclo.