O crescimento do número de profissionais de saúde formados no Brasil, aliado à dificuldade de ingresso em áreas mais competitivas e à diferença entre a quantidade de concluintes de medicina e as vagas disponíveis em programas de residência, tem ampliado o interesse por oportunidades profissionais na Espanha. O país reúne proximidade linguística e cultural com brasileiros e, ao mesmo tempo, enfrenta a necessidade de reforçar seu quadro de profissionais em áreas como enfermagem, medicina de família e outras atividades assistenciais. Para atuar regularmente no mercado espanhol, entretanto, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, farmacêuticos e demais profissionais de áreas regulamentadas precisam considerar que o planejamento não começa pela obtenção do visto ou pela procura de emprego, mas pelo reconhecimento jurídico e administrativo da formação acadêmica.
Evânia França, advogada especialista em Direito Migratório, inscrita na OAB e na Ordem dos Advogados de Portugal e com atuação em mobilidade internacional e planejamento migratório, explica que a homologação do diploma ocupa uma posição central na preparação de uma trajetória profissional na Espanha. “Existe uma diferença importante entre possuir residência legal, ter uma formação reconhecida e estar autorizado a exercer uma profissão regulamentada. O profissional pode ter uma proposta de trabalho ou até autorização para viver no país, mas isso não significa que seu diploma produzirá automaticamente os efeitos necessários para a atuação na área da saúde. A análise deve começar pelo percurso acadêmico, pelos documentos exigidos e pelas regras aplicáveis à profissão”, afirma.
A movimentação ocorre em meio à pressão sobre os sistemas de saúde dos dois países e ao aumento da procura pelo reconhecimento de títulos estrangeiros. Segundo o Ministério de Ciência, Inovação e Universidades da Espanha, em dados publicados em abril de 2026, o país resolveu 85.564 pedidos de homologação e equivalência em 2025, mais que o dobro dos 39.975 concluídos no ano anterior, sendo 79,7% das homologações ligadas à medicina. O procedimento é digital, tem prazo máximo de seis meses e admite tramitação simplificada de 60 ou 90 dias em alguns casos. No Brasil, a Demografia Médica registrou 16.189 vagas de residência de acesso direto para 27.263 concluintes de medicina, além da projeção de mais de 42 mil novos médicos formados por ano em curto prazo.Embora a Espanha tenha modernizado o sistema por meio do portal Valida TE e ampliado a capacidade de análise dos pedidos, o procedimento continua dependendo da apresentação adequada do histórico acadêmico, da organização dos documentos, do apostilamento e das traduções aplicáveis a cada caso.
Para Evânia, iniciar esse processo antes da mudança reduz riscos e permite avaliar com maior precisão as possibilidades profissionais existentes. “Os avanços administrativos e o volume de processos concluídos mostram que existe um fluxo internacional relevante de profissionais qualificados, especialmente na saúde, mas isso não elimina as exigências jurídicas. Quando o planejamento começa apenas após uma proposta de emprego ou depois da chegada à Espanha, o profissional pode enfrentar atrasos, custos inesperados e limitações que não havia considerado. A homologação não representa garantia de contratação, mas constitui uma etapa essencial para a construção de uma carreira regular e sustentável no país”, conclui.