Altas temperaturas e umidade elevam o desgaste físico, aumentam o risco de desidratação e exigem medidas especiais de proteção
Com a Copa do Mundo 2026 já em andamento e partidas sendo disputadas em cidades que enfrentam temperaturas elevadas neste verão da América do Norte, o calor tem se consolidado como um dos principais desafios da competição. Especialistas em saúde e esporte alertam que as condições climáticas podem impactar diretamente o desempenho dos atletas, aumentar o desgaste físico e elevar o risco de problemas relacionados ao superaquecimento do organismo.
“Durante o exercício, o corpo precisa equilibrar duas demandas simultâneas: enviar sangue aos músculos para sustentar o esforço físico e aumentar o fluxo sanguíneo para a pele para dissipar calor. Essa sobrecarga cardiovascular eleva a frequência cardíaca e acelera a fadiga”, explica Thiago Arruda, professor de Educação Física do IBMR, integrante do maior e mais inovador ecossistema de qualidade do Brasil, o Ecossistema Ânima. Segundo ele, o futebol praticado sob calor intenso exige um esforço muito maior do organismo.
Para monitorar essas condições, a FIFA utiliza a Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT, na sigla em inglês), índice considerado referência para medir estresse térmico no esporte. O cálculo leva em conta fatores como temperatura, umidade do ar, radiação solar e ventilação. Segundo protocolos internacionais, níveis próximos de 28°C já representam um sinal importante de alerta para atletas de elite.
Além da temperatura elevada, a alta umidade pode piorar ainda mais o cenário. “Em ambientes com alta umidade, o suor evapora com menor eficiência, dificultando a perda de calor e favorecendo o aumento da temperatura interna”, afirma Arruda.
Resfriar primeiro, transportar depois
Com a desidratação, o organismo perde parte do líquido que circula no sangue, obrigando o coração a trabalhar mais para manter o esforço físico. O resultado aparece não só no cansaço muscular, mas também na qualidade do jogo, já que o atleta pode perder velocidade de reação e precisão em lances decisivos.
“Entre os principais problemas causados pelo calor estão a exaustão térmica, marcada por tontura, fadiga intensa e queda brusca de rendimento, e o golpe de calor por esforço, emergência médica grave caracterizada por temperatura corporal acima de 40°C e sintomas como confusão mental e desorientação”, destaca o professor.
A combinação de calor extremo, desidratação e esforço físico extenuante também pode desencadear a rabdomiólise, uma condição em que as fibras musculares sofrem uma quebra e liberam conteúdos intracelulares na circulação, como mioglobina e CK. O acúmulo dessa substância sobrecarrega o sistema urinário, gerando um alto risco de lesão renal aguda, uma falha súbita nos rins que, se não tratada rapidamente, pode evoluir para a necessidade de diálise ou falência múltipla de órgãos.
Um dos métodos de proteção é a chamada aclimatação térmica, processo em que o corpo se adapta gradualmente ao calor após dias seguidos de treino em ambientes quentes, geralmente entre 10 e 14 dias. Com isso, o organismo consegue controlar melhor a temperatura corporal e reduzir o desgaste durante a atividade física.
Outras estratégias, como hidratação individualizada, bebidas geladas e pré-resfriamento com gelo antes das partidas, também ajudam a retardar o superaquecimento corporal.
“Em casos suspeitos de golpe de calor, o resfriamento imediato tornou-se prioridade absoluta. O protocolo internacional atual resume essa conduta na frase: ‘cool first, transport second’, resfriar primeiro, transportar depois”, explica Thiago Arruda.
Os cuidados não valem apenas para atletas profissionais. Durante grandes torneios, aumenta também o número de pessoas praticando futebol recreativo em horários de muito calor.
“Em um cenário de temperaturas cada vez mais extremas, respeitar os limites fisiológicos do corpo deixou de ser apenas uma estratégia de desempenho e passou a ser uma medida de segurança”, conclui o professor.