Sabe aquela sensação de que o fantasma sumiu da festa? Pois é. Temos um problema chique demais para ignorar: o silêncio sobre o HIV.
Nos anos 80 e 90, a Aids era um pesadelo na capa da revista. Dava medo. Dava luto. Depois, nos anos 2000, virou aquele assunto chato da aula de biologia, a camisinha obrigatória que matava o clima. E hoje? Cricket, cricket. Silêncio total.
Por que a gente praticamente parou de falar sobre isso? Vamos combinar: o tratamento avançou demais. Tomar remédio virou rotina, quem tem HIV e carga viral indetectável não transmite o vírus (é a magia do U=U — indetectável é igual a intransmissível). Isso salvou vidas. Mas também deu uma relaxada na conversa. A impressão que fica é: “Ah, agora tem coquetel, resolveu”.
Só que não resolveu.
O número de novos casos entre jovens, principalmente homens gays e pessoas trans, continua subindo. E pasmem: muita gente ainda encara a camisinha como “coisa do passado”. O negócio é que a Aids não pediu demissão; a gente que parou de chamar ela para a roda.
Tem mais um motivo, e esse é desconfortável: a banalização do “não vou perguntar”. Ninguém quer ter aquela conversa sobre teste e sorologia antes do sexo. Parece chato, parece acusatório. Mas o silêncio não é neutro. Ele perpetua o preconceito. Quem vive com HIV ainda esconde o diagnóstico por medo de rejeição, violência ou simplesmente de ser visto como “sujo”.
E a Prep (profilaxia pré-exposição)? Genial. Mudou o jogo. Mas, no imaginário popular, virou sinônimo de “posso fazer tudo sem camisinha, tô protegido”. Esquecem que a Prep não protege contra outras ISTs (que estão voltando com força total) e que não é acessível para todo mundo no SUS de forma imediata.
Ou seja: ou não se fala em Aids porque achamos que já foi resolvido (e não foi) ou porque temos medo do assunto, como se falar sobre HIV fosse duvidar do prazer. Nada mais errado.
Então, sem vergonha do que é sério: falar sobre HIV não é estragar o clima. É garantir que o clima continue existindo por muitos anos. Se você faz sexo, você precisa saber seu status. Se você tem parceiros novos, vale perguntar — com jeito, mas perguntar. Se você nunca fez um teste rápido (aquele de 15 minutinhos), tá na hora.
Colocar o HIV de volta na conversa não é nostalgia do medo. É resgate da responsabilidade sem pânico. É tratar o sexo como a delícia responsável que ele pode ser.
Porque silêncio, nesse caso, não protege ninguém. Só esconde o que ainda precisa ser dito.
Cuide-se. Teste-se. Converse. E transe à vontade, sabendo de tudo.