A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) reconheceu oficialmente que divulgou informações prematuras e equivocadas sobre o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho, envolvido em uma ocorrência nas proximidades do Centro Olímpico de Santa Maria, no último dia 2 de novembro.
Em nota à imprensa, o Centro de Comunicação Social da corporação lamentou os transtornos provocados pela divulgação de acusações que não encontraram respaldo na apuração conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal.
A retratação ocorre após a PCDF determinar, no dia 5 de novembro, o arquivamento da Ocorrência Policial nº 5.858/2026, por ausência de elementos mínimos indicativos de infração penal e reconhecimento da atipicidade da conduta atribuída ao ex-governador.
A nota da PMDF traz esclarecimentos importantes que desmontam a versão inicialmente divulgada.
O primeiro deles é que o próprio Ricardo Coutinho acionou a Polícia Militar, às 19h07, relatando uma situação de ameaça. Portanto, não foi surpreendido ou capturado em flagrante, como a repercussão inicial poderia sugerir. Compareceu voluntariamente à delegacia, assim como os demais envolvidos, e não houve prisão.
Outro ponto relevante é que não constam do boletim de ocorrência da Polícia Civil registros de gestos obscenos ou de natureza sexual, tampouco depoimentos de testemunhas que afirmassem ter presenciado convites dirigidos a crianças para entrarem no veículo do ex-governador.
A PMDF também reconheceu que não havia respaldo documental para a informação de que Ricardo Coutinho teria se apresentado como policial com a finalidade de intimidar terceiros.
São esclarecimentos graves, porque demonstram como informações não verificadas podem ganhar aparência de verdade quando divulgadas por uma instituição pública revestida de autoridade.
Na nota, a própria corporação admite:
“A divulgação inicial de informações ainda não suficientemente esclarecidas foi prematura e provocou repercussão pública incompatível com os fatos posteriormente apurados.”
A manifestação representa um reconhecimento institucional importante. A Polícia Militar não se exime de sua atuação operacional, que considera regular, mas admite o equívoco na comunicação pública.
Como delegado aposentado da Polícia Civil, considero indispensável distinguir a atuação legítima das equipes policiais da divulgação precipitada de informações capazes de comprometer a honra de um cidadão.
Uma ocorrência policial é apenas o registro de uma notícia que precisa ser apurada. Não constitui prova de crime, muito menos autorização para transformar suspeitas em condenações públicas.
No campo da Inteligência Estratégica, a verificação da confiabilidade das fontes e da consistência das informações é requisito elementar antes de qualquer divulgação institucional. Quando esse cuidado falha, o dano pode ultrapassar a esfera individual e atingir a própria credibilidade do Estado.
No caso de Ricardo Coutinho, a Polícia Civil cumpriu seu papel ao examinar os elementos disponíveis e concluir pela inexistência de fato típico. A Polícia Militar, por sua vez, deu um passo necessário ao reconhecer publicamente os equívocos de sua comunicação.
Resta agora uma reflexão para os veículos de imprensa e para aqueles que reproduziram acusações sem a devida cautela: a mesma velocidade empregada para espalhar suspeitas deveria ser utilizada para divulgar os esclarecimentos e reparar os danos à reputação do atingido.
A honra de uma pessoa não pode ficar à mercê de boatos transformados em comunicados oficiais. E a verdade, quando finalmente aparece, merece pelo menos o mesmo destaque que foi dado à acusação.
*Miguel Lucena é delegado aposentado da PCDF, advogado, jornalista e especialista em Inteligência Estratégica