* Por João Modesto Filho
A obesidade, como amplamente conhecido, é uma doença crônica, complexa e multifatorial que afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Ela se associa a inúmeras condições clínicas, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, esteatose hepática, apneia do sono e determinados tipos de câncer, exigindo, assim, uma abordagem terapêutica contínua e individualizada.
Assim, com a evolução dos medicamentos incretínicos estamos ampliando as possibilidades de tratamento.
Há poucos dias, em São Paulo, tivemos a apresentação de uma nova substância, o orforglipron, um agonista não peptídico do receptor de GLP-1 e que surge como uma alternativa de administração oral, tomado uma vez ao dia e sem necessidade de refrigeração. Tal característica poderá facilitar a utilização por pessoas que enfrentam dificuldades ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis.
No entanto, a relevância dessa substância não se limita apenas a conveniência. A perda de peso clinicamente significativa constitui um objetivo terapêutico capaz de melhorar parâmetros metabólicos, cardiovasculares e funcionais. Já se sabe que reduções de 5% a 10% do peso corporal proporcionam benefícios importantes, enquanto perdas maiores podem contribuir para o controle do diabetes tipo 2 e de complicações metabólicas associadas a obesidade.
Nesse sentido, um estudo denominado ATTAIN-1, publicado no New England Journal of Medicine em setembro de 2025, avaliou 3.127 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, mas sem diabetes tipo 2. Esse estudo, que foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, acompanhou os participantes durante 72 semanas, com três doses de orforglipron: 6 mg, 12 mg e 36 mg.
Os resultados demonstraram redução de peso dependente da dose. As perdas médias foram de 7,5%, 8,4% e 11,2%, respectivamente, contra 2,1% no grupo placebo. Na maior dose, 54,6% dos participantes alcançaram perda ponderal de pelo menos 10%, enquanto 36,0% atingiram 15% e 18,4% alcançaram 20%.
Também foram observadas melhorias na circunferência abdominal, pressão arterial e perfil lipídico, reforçando a importância de avaliar o tratamento para além da balança.
Mas a magnitude dessas alterações não deve ser interpretada como demonstração de redução de eventos cardiovasculares ou renais, pois tais desfechos necessitam de estudos específicos. Por outro lado, o perfil de segurança foi semelhante àquele observado para os agonistas do receptor de GLP-1, como liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Logo, os efeitos adversos mais frequentes foram os gastrointestinais, como náuseas, diarreia, vômitos e constipação intestinal, geralmente de intensidade leve a moderada. A descontinuação do tratamento por conta desses efeitos ocorreu em 5,3% a 10,3% dos grupos tratados, contra 2,7% do placebo.
Esses dados reforçam a necessidade de titulação, avaliação clínica e orientação sobre tolerabilidade. A prescrição deve considerar contraindicações, comorbidades, medicamentos concomitantes e possibilidade de efeitos adversos.
Temos ainda que um dos principais desafios no tratamento da obesidade é o da manutenção dos resultados. Sabemos que essa afecção envolve mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso após sua redução, o que torna inadequada a ideia de que o tratamento termina quando uma meta é alcançada.
Nessa linha, um outro estudo, o ATTAIN-MAINTAIN, publicado esse ano na revista Nature Medicine, investigou a utilização do orforglipron após redução ponderal obtida com tratamentos injetáveis. Os resultados apontaram para manutenção de parte substancial da perda de peso, embora o estudo tenha limitações, como duração de um ano e ausência de um grupo que continuasse o medicamento injetável.
Não obstante, devemos ter em mente que a conveniência da administração oral não substitui o acompanhamento multiprofissional, a alimentação adequada, a atividade física e o tratamento das condições associadas.
Por tudo isso, o orforglipron representa uma etapa importante na evolução dos medicamentos incretínicos. Sua estrutura não peptídica e a administração oral mostram que pesquisas podem explorar novas formas de ativação do receptor de GLP-1. Em todo caso, a grande questão não é apenas quanto peso o medicamento consegue reduzir, mas quais benefícios clínicos sustentados pode proporcionar, para quais pacientes e com que perfil de segurança em longo prazo.
Por isso, a investigação de desfechos cardiovasculares, renais e de outras complicações relacionadas a obesidade será fundamental para entendermos a compreensão de seu papel terapêutico.
A chegada de novas opções terapêuticas representa uma oportunidade de ampliar o cuidado, desde que acompanhada de avaliação médica responsável, equidade de acesso e compromisso com resultados clínicos duradouros.
Por fim, o orforglipron inaugura uma perspectiva relevante para o tratamento oral da obesidade. Os resultados do ATTAIN-1 demonstram eficácia ponderal e melhoras cardiometabólicas, enquanto os estudos de manutenção e de desfechos clínicos aumentam as perguntas sobre seu impacto futuro. A endocrinologia deverá acompanhar essa evolução com a soma de inovação, segurança e cuidado centrado no paciente.
* Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026