Querida Coluna Sem Vergonha,
Escrevo aqui com um peso no peito que carrego há algum tempo. Durante o meu último relacionamento, minha ex-namorada tinha um desejo sexual específico: ela pedia que eu a asfixiasse durante o sexo. No começo, encarei como uma fantasia ousada, algo para apimentar a nossa intimidade. Tentei, com cuidado, e ela realmente sentia muito prazer. Mas, com o tempo, aquilo começou a me corroer por dentro.
O ato que era suposto para ser de intimidade e conexão se transformou em uma fonte de ansiedade. Toda vez que ela pedia, eu me sentia invadido por uma angústia. A minha mão no pescoço dela, por mais controlada que fosse, não me dava tesão; me dava medo. Medo de machucá-la, medo de perder o controle, medo de que algo terrível acontecesse. O clima esquentava, e eu… brochava. A frustração dela era visível, e a minha, ainda maior. Comecei a evitar o sexo, e a nossa intimidade foi definhando. Terminamos por outros motivos, mas confesso que esse foi um dos grandes fatores que me fez me afastar emocionalmente.
Resposta da Coluna:
Caro Leitor,
Em primeiro lugar, quero que você saiba que a sua experiência é mais comum do que imagina, e o seu sentimento é perfeitamente válido e compreensível. Você fez bem em escrever.
Você tocou em um ponto crucial, que muitas vezes é ignorado quando se fala em sexualidade: o prazer é uma via de mão dupla, e o conforto e o consentimento de ambos são inegociáveis.
O que você descreve vai muito além de uma simples “incompatibilidade”. A prática de asfixia erótica (ou edgeplay) é uma atividade de alto risco, mesmo quando feita com técnicas e consentimento pleno. O seu medo não era falta de coragem ou de “sacanagem”; era um instinto de preservação – a sua e o dela. É o seu cérebro e o seu corpo gritando que aquilo é perigoso.
É um enorme equívoco achar que, em um relacionamento, devemos aceitar e executar todas as fantasias do parceiro, independentemente do nosso próprio limite. O seu limite foi atingido. E limite não é algo a ser “superado” por pressão; é uma fronteira do seu bem-estar que deve ser respeitada.
A sua reação de “brochar” foi a forma mais clara que o seu corpo encontrou para dizer “não”. Ele se recusou a participar de um ato que, para você, era associado ao perigo e ao desconforto emocional. Isso não é uma falha, é uma resposta de autopreservação.
Vamos refletir sobre alguns pontos importantes:
1. Comunicação é Tudo (Mas Precisa Ser de Verdade): Em uma situação como essa, uma conversa franca fora do contexto sexual é essencial. “Amor, eu te amo e quero que você sinta prazer, mas esse ato em específico me causa ansiedade e medo. Não consigo mais fazer isso.” Se a parceira ou parceiro não respeita essa declaração, o problema não está no sexo, mas na falta de respeito básico.
2. O Prazer do Outro Não Pode Ser uma Moeda de Troca para o Seu Desconforto: Um relacionamento sexual saudável é construído na base do prazer mútuo. Quando a fonte de prazer de um se torna a fonte de angústia do outro, o equilíbrio se quebra. A intimidade deixa de ser um espaço seguro.
3. Você Não É “Caretinha” ou “Fracassado”: A cultura pop, com cenas erotizadas e sem contexto, muitas vezes banaliza práticas de risco. Resistir a isso e ouvir a sua voz interior não é fraqueza, é uma demonstração de maturidade e inteligência emocional.
Leitor, você não estragou nada. Você se protegeu. O fim desse relacionamento provavelmente foi a consequência de uma incompatibilidade que ia além de gostos, chegando aos valores fundamentais de segurança e respeito.
Use essa experiência como um aprendizado. No futuro, saberá que colocar os seus limites é o primeiro e mais importante ato de intimidade. E encontrar uma parceira que respeite esses limites – e que busque o prazer com você, e não às suas custas – é a base para uma vida sexual verdadeiramente gratificante e, acima de tudo, sem vergonha.