
Eu descobri que seria jornalista muito cedo, acredito que ainda criança no Principado de Sant’Ana do Garrote, de onde venho. O jornalismo tem na sua natureza um pouco de romantismo e muita vaidade, e exige que o jornalista seja astuto, curioso e saiba escrever.
Um certo dia, final de tarde, um repórter chega à Redação e vai falar com o editor, dizendo-lhe que a pauta tinha furado, e apresentou uma desculpa. De cabeça baixa, o homem falou:
— Meu filho, jornal não se faz com desculpas.
Aquilo me acompanha até hoje. Sempre que saía para cumprir uma pauta e encontrava dificuldade para cumpri-la, dava um jeito de fazer uma outra matéria, para não chegar à Redação de mãos vazias, porque “jornal não se faz com desculpas”.
O que gosto de fazer no jornalismo é uma boa reportagem, e nunca rejeitei uma pauta, fosse para passar uma semana no Sertão contando o drama da seca ou para entrevistar um militar preso em um cubículo na Cadeia de Juazeirinho.
Porque o jornalista Rubens Nóbrega (comigo, na foto abaixo) era editor do Correio da Paraíba e tinha dado a pauta a um monte de gente, e todos apresentaram uma desculpa para não ir. O negócio chegou na minha mão, eu fui e trouxe a matéria pronta e até recebi elogios do diretor José Fernandes Neto.
Mas isso lhe bota em algumas enrascadas. Agnaldo Almeida era diretor de redação de O Norte, e quando uma pauta já tinha passado por muitos repórteres, e sempre chegava uma desculpa, no lugar da matéria, ele me chamava e dizia:
— José, eu tenho uma missão para você — e jogava o que queria nas minhas mãos, me dando um prazo e me dispensando do trabalho diário na redação. Saía e dois dias depois lhe entregava o material.
Ele chamava, um a um, os repórteres a quem tinha dado a pauta e dizia: “Veja aí a matéria feita”. E encerrava a conversa com a frase: “Jornal não se faz com desculpas”. Acabei, injustamente, sendo acusado por uma meia dúzia de três ou quatro de ser “o protegido de Agnaldo”.
Fizemos uma greve, aqui, fui demitido, e me vi desempregado com duas filhas pequenas para criar. Apresentei a solução a minha mulher: vou embora para Brasília, trabalhar e estudar, e fazer um concurso. E fui.
Por intermédio do jornalista Adeildo Bezerra, a quem nem ralando pago o favor que lhe devo, consegui uma vaga de repórter no Correio Braziliense na editoria de cidade.
Botei uma calça jeans, uma camisa branca e fui para o meu primeiro dia de trabalho. Me deram uma pauta para cobrir um surto de doenças respiratórias que estava acontecendo numa comunidade chamada Santo Antônio, que se existir o inferno, aquilo é a entrada.
Fiz a matéria com uma principal e duas retrancas e entreguei ao editor Raul. No outro dia, abri o jornal e estava minha matéria como a manchete do caderno de cidades e a chamada na primeira página. Cheguei bem, pensei comigo.
Joaquim Roriz era governador do Distrito Federal e começou a distribuir terra com os pobres para a construção de casas. Essa conversa chegou aos ouvidos do povo do Nordeste.
Um dia, fazendo uma matéria, passando no Setor Comercial Sul, vejo uma mulher esmolando com duas crianças no colo. O carro parou e eu pedi ao fotógrafo para fazer uma foto, que eu faria um texto-legenda.
Conversando com a mulher, ela me disse que era de João Pessoa e tinha recebido a passagem de Dona Lucia Braga. Cheguei no jornal e cantei uma pauta: os políticos do Nordeste estão enviando gente para Brasília, se livrando assim de um enorme problema.
O jornal me mandou de avião para a Paraíba e eu voltava de ônibus acompanhando uma dessas famílias, com o fotógrafo Wanderley Pozzembom. A matéria provocou a realização de um Seminário para discutir o assunto.
Mas, o tempo rodou, me aposentei, e hoje eu vivo escrevendo um livro e enfiando bufa num cordão.
