quarta-feira, 5 de agosto de 2026
A maldição do bezerro dos olhos de fogo
05/08/2026

Depois que o bezerro dos olhos de fogo fugiu do curral, pulando a cerca, ao avistar Antônio Marcelino, Nino ficou preocupado com aquilo, até porque nunca, em toda sua existência, tinha ouvido falar em coisa igual. 

No sábado da feira, no café de Vicente de Ló, foi procurado pelo velho rezador Zé Barbosa, dizendo que precisavam conversar sobre o assunto. Marcaram um encontro para o dia seguinte, no Curral Velho. 

O rezador chegou, tomaram café e Nino lhe disse: “Diga, cumpade Zé”. “Essa conversa é particular e muito sigilosa. Vamos sair daqui”, propôs o rezador, e caminharam em direção ao Engenho. Sentaram embaixo da Baraúna e começaram a conversa. 

— Cumpade Severino, lembra quando os vaqueiros pegaram a novilha Miúda e o chocalho não tocava porque estava entupido de folhas de marmeleiro? Pois bem, aquilo não foi obra de gente dessa terra, não — falou sempre com a cabeça baixa.

— Lembro, sim, cumpade. Mas, se não foi coisa de gente daqui, de quem poderia ser? — respondeu.

— Meu bom amigo, o mundo guarda segredos que a alma humana desconhece. Eu digo isso com conhecimento de causa. O senhor acredita no que lhe falo? — perguntou. 

E continuou: “Como pode a novilha Miúda permitir que alguém lhe fizesse isso, se a única vez que a mão humana lhe tocou, foi para lhe botarem o chocalho? Além do mais, como pode ela ter ficado de barriga, se não tinha nenhum touro na região? Isso só tem uma explicação”, assuntou. 

E Nino cada vez mais curioso e interessado na conversa, querendo saber onde o rezador queria chegar com aquela história toda, cheia de mistério. 

Fazia mais de um ano que o bezerro tinha pulado a cerca do curral e já devia ser um touro. As novilhas dos criadores da região começaram parir bezerros pretos. Até as vacas da raça Nelore de Emar Anjo davam cria de bezerros pretos. 

Era um ano de seca, o povo passando fome, invadindo a feira e correndo para suas casas com sacos de feijão, arroz, farinha e milho nas costas. 

O rezador recomendou a Nino mandar celebrar uma missa no primeiro dia do ano e distribuir carne de boi e comida para todos. E o conselho foi aceito. Todos os anos, no dia primeiro de janeiro, uma missa era celebrada no Curral Velho.

Em 1966, ano de uma seca terrível, na hora da missa, uma boiada de touros negros foi avistada em disparada na direção da multidão e Chico Grande gritou: “Olha a boiada”, e quando o povo levantou a vista, os touros sumiram e uma revoada de gaviões negros sobrevoaram a Casa Grande do Curral Velho. Até o padre se benzeu.

Neto de Paulo Bandeira morreu afogado no Açude Grande e o pai mandou fazer uma cruz enorme de granito, com as pontas afiadas e fincou-a à beira da água. 

Uma noite, os cachorros começaram latir, correndo atrás de um bicho, e o touro foi se refugiar na água, bateu com a cabeça na ponta da Cruz e morreu, sendo encontrado pela manhã. 

Nino tirou o couro do animal e vendeu para um Cortume, em Campina Grande. Quinze dias depois, mergulhado em um tanque de água com casca de Angico, o couro foi encontrado sem soltar um único pelo, e foi devolvido. 

— Deixe ele aí, que eu vou transformar em tiras para fazer arreio pros animais — disse Nino, e quando pegou a peixeira e começou cortar, a faca se transformou numa lingueta de ferro em brasa.

Então, foi decidido que o couro do touro encantado seria jogado na fornalha do Engenho e por conta disso, Zé de Ernesto, passou sete dias sem jogar um graveto de lenha na fornalha, que queimou por uma semana. 

E a maldição foi desfeita. Mas, ainda hoje eu não gosto de animal preto…

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Zé Euflávio
Zé Euflávio

Zé Euflávio é um dos jornalistas mais respeitados da Paraíba, com passagens também pelo Correio Braziliense.