Miguel Lucena
Numa repartição pública onde trabalhei, deparei-me com um mistério digno de investigação. Entrei no banheiro logo após um servidor e encontrei um caroço de manga recém-chupado, brilhando de tão limpo, além das cascas cuidadosamente jogadas na lixeira.
Achei estranho, mas segui a vida.
Dias depois, a cena se repetiu. O mesmo servidor saiu do banheiro. Entrei logo em seguida. Lá estavam novamente o caroço reluzente e as cascas da manga.
Não precisei de inquérito nem de perícia. A conclusão era inevitável: o colega tinha o hábito de chupar manga no banheiro.
O que mais me impressionava era o capricho. O caroço ficava tão limpo que parecia ter passado por polimento. Daí imaginei a cena: sentado no vaso, resolvendo as demandas da natureza enquanto saboreava a fruta.
Era a verdadeira multitarefa do serviço público. Enquanto uns liam jornal e outros mexiam no celular, ele fazia tudo acompanhado de uma manga.
Nunca perguntei qual era a variedade. Certas investigações devem permanecer arquivadas.
