Nas Lendas da Guatemala, de Miguel Angel Astúrias, livro-clímax, mais para se beber do que se ler, segundo o gosto de Paul Valéry, as árvores que povoam e fazem as histórias não somente são possuídas de sensibilidade vegetal, sofrendo a ação do tempo e a intimidade dos homens, como se constituem no substrato arterial e eixo de todos os reinos.
Nas Lendas, extasiantes, tudo é árvore, folha, numa troca em que o destino humano não passa de compósito, aquela mesma fatalidade antevista pela grande força de Augusto dos Anjos, em que homem e tamarindo morrem reunidos, um com o envelhecimento da nervura, outro com o envelhecimento dos tecidos.
“Não morrerão, porém, tuas sementes!”
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos.
Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos!”
A morte da árvore, em Augusto, é o símbolo da unidade, como o seu florescimento, em Astúrias, é a respiração da vida. Num e noutro caso, na paleontologia dos Carvalhos ou nos duendes verdes da Guatemala, a árvore é a Grande Mãe, aurindo para todos os demais seres de nervura ou de tecido.
João do Ó, que morreu na angústia desesperada de se transferir inteiro para um violino, morrendo sem conseguir uma única harmonia, entrou uma tarde na redação, os olhos de raiva, segurando o braço como se uma navalha afiadíssima houvesse lhe cortado.
– Olhem aqui, estão vendo?!
Mostrava um braço de veias puladas, túrgidas, a outra mão apertando em cima como num esforço para estancar o esguicho de sangue imaginário. Corremos em seu socorro, rodeamo-lo e não conseguíamos ver, com os nossos olhos, o sangue que ele se sentia perdendo.
– Mas não há sangue nenhum aí, João.
E ele, apoplético: Está sangrando aqui, seus trouxas, o que acabam de decepar na minha rua. Foge em mim o que escorre lá, linfa na árvore, em mim, sangue.
Tinham cortado uma acácia, na sua rua, para transformar em fogueira. O corte atingira, em cheio, a alma de João.
Nas Lendas, as árvores não apenas se transfundem, mas viram fantasmas, mal-assombram, na tentativa de repetir os entes reais da depredação.
É o que me fez lembrar, tempos atrás, a sucessão de carros machucados e destruídos com a queda de árvores. A descrição do próprio jornal tinha muito da magia ou da teologia salamanquina da história-sonho-poemas de Astúrias. A árvore não cai, não se
desprende do seu tronco nem de suas raízes. Conforme o jornal, ela se joga sobre o carro, salta sobre alguma coisa que a incomodava. Foi tão caracterizada. A agressão, que o proprietário do veículo quis mover uma ação contra o suposto responsável, a Prefeitura, para se ressarcir do estranho prejuízo.
Desprotegidas, maltratadas, sufocadas sob o peso de um estacionamento de toneladas sobre suas raízes, as árvores viram fantasmas e, antes de morrerem, antes do cemitério vegetal em que está se transformando a Lagoa, hão de fazer muitos estragos. À falta de quem as defendam, elas assumem a própria defesa.