Vamos falar de um futuro hipotético? Daqueles devaneios que a gente tem no trânsito ou no banho e que, de tão inusitados, parecem fazer um certo sentido? Pois bem, a pergunta que não quer calar, e que eu trago aqui sem nenhuma vergonha, é: em um mundo de infinitas possibilidades de amor e identidade, será que um dia veremos o romance (ou só uma paquera mesmo) entre um homem gay e uma mulher lésbica?
Parece um contrassenso, não? A premissa básica da atração é justamente a sintonia. O homossexual gosta de pessoas do mesmo gênero. A lésbica, idem. Os caminhos, em tese, são paralelos e nunca devem se encontrar. Mas e se a gente pensar além da atração sexual por um segundo?
A ideia me veio com um pensamento prático, quase burocrático: “Até filhos eles poderiam fazer”. É uma lógica fascinante. Do ponto de vista puramente biológico, é a combinação perfeita. Dois people que entendem profundamente a complexidade de se relacionar com alguém do mesmo gênero, unidos por uma cumplicidade única, e que, se desejassem, poderiam constituir uma família biológica sem precisar recorrer a doadores anônimos ou processos complexos. Seria a dupla que já chega com o manual de instruções completo.
Mas o mundo não é um laboratório. O coração (e outras partes do corpo) não obedece à lógica reprodutiva. A atração é um negócio misterioso, irracional e, por isso, lindo. A pergunta que fica é: o que sustenta um relacionamento para além da amizade? A atração romântica e sexual é um pilar fundamental para a maioria de nós.
Dito isso, o mundo já está evoluindo para coisas muito mais interessantes do que simplesmente “héteros” e “homo”. Estamos descobrindo o espectro. A assexualidade, a pansexualidade, os relacionamentos queerplatônicos (onde o vínculo profundo não é necessariamente romântico ou sexual). As caixinhas estão todas sendo reviradas e remontadas.
Quem sabe, no futuro, essa minha provocação não se torne realidade não como uma regra, mas como mais uma possibilidade no vasto cardápio das relações humanas? Não uma evolução para isso, mas uma evolução que inclua isso. Um homem gay e uma mulher lésbica podem descobrir que, em meio a um mundo que ainda os pressiona, eles encontram um porto seguro único um no outro. Uma conexão de almas gêmeas que transcende a atração física convencional.
No fim das contas, a verdadeira evolução dos gêneros e da sexualidade não é que todo mundo vai se encaixar em uma nova fórmula. A verdadeira evolução é que cada um tenha a liberdade e o respeito para descobrir e viver a sua própria fórmula, por mais improvável que ela pareça.
E se um dia esse casal improvável surgir, eu torço para que eles sejam muito felizes – e que me convidem para o chá de bebê. Porque, convenhamos, a conversa entre eles sobre TPM e homem hetero top deve ser simplesmente hilária.