terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Mulheres e Política: vozes contra a opressão
17/02/2026

Mulheres têm protagonizado lutas políticas por todo o mundo, como ocorre no Irã, onde as batalhas feministas ganham contornos heroicos.

Mulheres têm protagonizado lutas políticas por todo o mundo, como ocorre no Irã, onde as batalhas feministas ganham contornos heroicos.

Muitos acreditam que a política é uma atividade masculina. Ledo engano. Ao longo da história, mulheres têm sido protagonistas na luta por direitos políticos, socioculturais, econômicos e ambientais, impulsionando mudanças significativas nas estruturas de poder. 

No passado, as sufragistas britânicas pavimentaram o caminho para o voto e outras tantas conquistas. Hoje, movimentos como #MeToo e as Marchas das Mulheresimpulsionam pautas urgentes, como a paridade laboral, o fim das violências domésticas e a maior representação nos parlamentos nacionais e nos cargos de liderança, públicos ou privados. No Brasil, por exemplo, a bancada feminina tem protagonizado a aprovação de leis contra o feminicídio e contra a jornada 6×1, ao passo que, na Argentina, las hermanas mobilizam milhões com o movimento Ni Una Menos

No Irã, mulheres lideram a resistência contra o regime teocrático desde 1979, quando a revolução comandada pelo aiatolá Khomeini depôs o regime corrupto e pró-Ocidente do xá Reza Pahlevi. Um dos momentos mais agudos dessa luta se deu após a morte de Mahsa Amini, uma iraniana de 22 anos que havia sido presa pela polícia da moralidade por não utilizar corretamente o hijab (véu que encobre a cabeça). Na sequência, eclodiram inúmeros protestos que bradavam o lema “mulher, vida, liberdade”. 

Assim como Amini, que pertencia à minoria étnica curda, muitas mulheres iranianas continuam a enfrentar as forças repressivas do Estado, ocupando as ruas e frequentemente pagando caro com prisões, torturas e execuções. É o que o mundo vem assistindo perplexo desde janeiro de 2026, quando, no rastro das tensões entre EUA e Irã, milhares de mulheres – muitas das quais jovens e adolescentes – saíram às ruas para protestar contra a maré inflacionária e contra as restrições comportamentais impostas pelo regime xiita. Foram duramente reprimidas.

As lutas das mulheres iranianas, importa frisar, não significa um apoio às ameaças trumpistas de novos bombardeios ao Irã e muito menos uma capitulação frente ao imperialismo norte-americano. É uma luta que remonta ao constitucionalismo persa do século XIX e que vem evoluindo para um feminismo pragmático, politicamente referenciado, que, na visão do sociólogo iraniano Asef Bayat, é caracterizado como um verdadeiro “feminismo da presença”.

Esse feminismo rejeita muitas das regras do código islâmico, que, dentre outras limitações, proíbe músicas, educação mista (meninos e meninas) e autonomia corporal, cerceando elementos tão simples quanto um corte de cabelo. Ele também assume um papel ativo na defesa do bem-estar da população, confrontando medidas econômicas que impactam o orçamento das famílias e restringem o acesso à diferentes bens de consumo. Por fim, também se contrapõe à corrupção endêmica que atinge o governo, a má gestão do erário e o agravamento de problemas socioambientais, refletindo, inevitavelmente, as tensões nas relações com os EUA e seu principal aliado no Oriente Médio, Israel. 

Todavia, muito além da geopolítica, a luta das mulheres iranianas é por democracia e liberdade. Com tantos segmentos sociais ainda anuentes com o regime dos aiatolás, essa é uma luta necessária, capaz de inspirar outras tantas, mundo afora. No Irã, como em muitos outros países do mundo, o protagonismo feminino descortina o fato de que as mulheres não são apenas vítimas dos poderes patriarcais, mas também agentes radicais de mudanças sociais, políticas e econômicas. 

Mestre em Ciência Política. Psicanalista

Lier Pires Ferreira,

PhD em Direito. Cientista Político

Muitos acreditam que a política é uma atividade masculina. Ledo engano. Ao longo da história, mulheres têm sido protagonistas na luta por direitos políticos, socioculturais, econômicos e ambientais, impulsionando mudanças significativas nas estruturas de poder. 

No passado, as sufragistas britânicas pavimentaram o caminho para o voto e outras tantas conquistas. Hoje, movimentos como #MeToo e as Marchas das Mulheresimpulsionam pautas urgentes, como a paridade laboral, o fim das violências domésticas e a maior representação nos parlamentos nacionais e nos cargos de liderança, públicos ou privados. No Brasil, por exemplo, a bancada feminina tem protagonizado a aprovação de leis contra o feminicídio e contra a jornada 6×1, ao passo que, na Argentina, las hermanas mobilizam milhões com o movimento Ni Una Menos

No Irã, mulheres lideram a resistência contra o regime teocrático desde 1979, quando a revolução comandada pelo aiatolá Khomeini depôs o regime corrupto e pró-Ocidente do xá Reza Pahlevi. Um dos momentos mais agudos dessa luta se deu após a morte de Mahsa Amini, uma iraniana de 22 anos que havia sido presa pela polícia da moralidade por não utilizar corretamente o hijab (véu que encobre a cabeça). Na sequência, eclodiram inúmeros protestos que bradavam o lema “mulher, vida, liberdade”. 

Assim como Amini, que pertencia à minoria étnica curda, muitas mulheres iranianas continuam a enfrentar as forças repressivas do Estado, ocupando as ruas e frequentemente pagando caro com prisões, torturas e execuções. É o que o mundo vem assistindo perplexo desde janeiro de 2026, quando, no rastro das tensões entre EUA e Irã, milhares de mulheres – muitas das quais jovens e adolescentes – saíram às ruas para protestar contra a maré inflacionária e contra as restrições comportamentais impostas pelo regime xiita. Foram duramente reprimidas.

As lutas das mulheres iranianas, importa frisar, não significa um apoio às ameaças trumpistas de novos bombardeios ao Irã e muito menos uma capitulação frente ao imperialismo norte-americano. É uma luta que remonta ao constitucionalismo persa do século XIX e que vem evoluindo para um feminismo pragmático, politicamente referenciado, que, na visão do sociólogo iraniano Asef Bayat, é caracterizado como um verdadeiro “feminismo da presença”.

Esse feminismo rejeita muitas das regras do código islâmico, que, dentre outras limitações, proíbe músicas, educação mista (meninos e meninas) e autonomia corporal, cerceando elementos tão simples quanto um corte de cabelo. Ele também assume um papel ativo na defesa do bem-estar da população, confrontando medidas econômicas que impactam o orçamento das famílias e restringem o acesso à diferentes bens de consumo. Por fim, também se contrapõe à corrupção endêmica que atinge o governo, a má gestão do erário e o agravamento de problemas socioambientais, refletindo, inevitavelmente, as tensões nas relações com os EUA e seu principal aliado no Oriente Médio, Israel. 

Todavia, muito além da geopolítica, a luta das mulheres iranianas é por democracia e liberdade. Com tantos segmentos sociais ainda anuentes com o regime dos aiatolás, essa é uma luta necessária, capaz de inspirar outras tantas, mundo afora. No Irã, como em muitos outros países do mundo, o protagonismo feminino descortina o fato de que as mulheres não são apenas vítimas dos poderes patriarcais, mas também agentes radicais de mudanças sociais, políticas e econômicas. 

Hoje, em cidades como Teerã, mesmo os funerais das pessoas vitimadas pela repressão são convertidos em atos de resistência ao regime islâmico. Trata-se de um novo mecanismo de rejeição à falta de liberdade, pelo qual músicas, danças e outros comportamentos proibidos ou restringidos são reconvertidos em signos de veemência contra o poder instituído. Em uma época de retrocessos autoritários, onde a vitórias antifascistas devem ser vivamente celebradas, como aconteceu há alguns dias com Antônio José Seguro, em Portugal, a resiliência das mulheres iranianas é uma força inspiradora, que vem gerando genuína admiração e solidariedade. 

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Renata Medeiros — Mestre em ciência política, advogada;
Lier Pires Ferreira
— PhD em Direito (UERJ). Pesquisador do NuBRICS/UFF.