
Minha gente, eu estava dentro do carro, saindo de Sintra em direção a Cascais com minhas amigas, quando uma delas resolveu comentar a última confusão de Mara Maravilha. E eu, que estava tranquilíssima, olhando a paisagem e pensando onde tomaríamos uma bica, quase pedi para encostar o automóvel. Porque tem gente que parece ter feito da indignação uma profissão. E, quando o assunto acaba, vai procurar outro no arquivo morto da internet.
A baianinha, que recentemente deixou a Rede Gospel depois de três anos à frente do próprio programa, voltou a atacar colegas de profissão nesta semana. Depois de tantas declarações envolvendo a coitada da Xuxa, agora resolveu mirar em Daniela Mercury e Ivete Sangalo. O motivo? Um beijo antigo entre as duas cantoras. Sim, minhas filhas, um gesto de carinho que já tinha acontecido e que Mara resolveu trazer novamente à tona. Eu fico imaginando o esforço para encontrar uma polêmica que nem sequer é nova.
Na quarta-feira (7), Mara publicou a imagem das artistas e declarou que o Brasil precisava de educação, saúde e segurança, e não daquele tipo de cena. Como se um beijo entre duas mulheres fosse responsável pelos problemas estruturais do país. E ainda escreveu que estava poluindo o próprio perfil e que depois daria descarga. Que delicadeza, não é mesmo? A senhora resolveu transformar demonstração de afeto em sujeira e ainda achou que estava prestando um serviço à nação.
Agora, minha querida Mara, vamos conversar sobre telhado de vidro? Porque eu tenho memória, arquivo e uma curiosidade jornalística que não me deixam esquecer certas coisas.
Mara Maravilha posou nua para a Playboy em 1990, justamente quando era conhecida nacionalmente como apresentadora infantil, quem lembra do Show Maravilha? Décadas depois, declarou arrependimento pelo ensaio. E está no direito dela. O corpo era dela, a decisão era dela, assim como o arrependimento também lhe pertence. Mas é curioso ver alguém que já defendeu a própria liberdade de fazer escolhas demonstrar tamanho desconforto com um beijo entre duas colegas.
E tem outro capítulo dessa biografia que a própria Mara tornou público. Em junho de 2008, durante participação no programa Hoje em Dia, da Record, ela revelou que havia feito um aborto. Falou sobre as circunstâncias daquela decisão, seus conflitos e seu posicionamento contrário ao procedimento. É uma experiência íntima e séria, que merece respeito. Justamente por isso, deveria servir de lembrança de que a vida humana é complexa demais para caber nos julgamentos apressados que fazemos sobre os outros.
E aí eu pergunto: como uma mulher que já enfrentou tantas contradições, mudanças e julgamentos públicos consegue demonstrar tão pouca tolerância diante das escolhas de outras mulheres?
Mas existe outro detalhe nessa história. Mara anunciou em setembro sua saída da Rede Gospel, alegando motivos familiares e a necessidade de dedicar mais tempo ao filho. Também divulgou planos para novos projetos profissionais. Portanto, não dá para afirmar que nenhuma emissora a queira contratar. O que dá para observar é que suas declarações contra colegas continuam garantindo espaço no noticiário.
E isso me incomoda profundamente.
Porque começo a me perguntar se a estratégia de aparecer por meio de confrontos não se tornou mais eficiente para Mara do que falar sobre o próprio trabalho. Uma semana é Xuxa, na outra é Daniela Mercury, agora Ivete Sangalo entra na história. Parece uma escalação de adversárias escolhidas entre as mulheres mais conhecidas da televisão e da música brasileira.
Eu disse às minhas amigas, ali dentro do carro, que existe uma diferença entre ter convicções e transformar a vida alheia em palanque permanente. Mara pode defender sua religião, seus valores e suas posições. Mas precisa aceitar que outras mulheres não têm obrigação de viver segundo a cartilha dela.
E vamos combinar uma coisa? Ivete Sangalo e Daniela Mercury têm carreiras construídas ao longo de décadas, sucessos populares e histórias próprias. Não precisam da aprovação de Mara para trocar um beijo, demonstrar carinho ou se posicionar publicamente.
O que mais me impressiona é a escolha do alvo. Em vez de apresentar uma novidade artística, Mara recuperou uma imagem antiga para produzir mais uma controvérsia. E, quando uma artista passa a chamar mais atenção pelas pessoas que critica do que pelo trabalho que apresenta, talvez seja hora de repensar o repertório.
Já estávamos chegando a Cascais quando uma das minhas amigas perguntou se eu não estava sendo severa demais.
Respondi que não. Porque não estou questionando a fé de Mara, o ensaio nu que fez ou uma decisão íntima que tomou na juventude. Estou questionando essa necessidade de julgar publicamente outras mulheres por suas escolhas.
Mara Maravilha tem todo o direito de mudar de vida, de opinião e de religião. Mas quem mora numa casa com tanto vidro deveria pensar duas vezes antes de passar o domingo inteiro atirando pedras no telhado das vizinhas.