João Pessoa, terça-feira, 27 de outubro de 2026
Kane leva o ouro. O Brasil fica com a saudade
26/10/2026

Harry Kane merece a Bola de Ouro entregue nesta segunda-feira (26). Reconhecer a competência do centroavante inglês do Bayern de Munique, porém, não obriga ninguém a enxergar nele um jogador da dimensão dos maiores que já ocuparam esse lugar. Sua eleição premia uma temporada extraordinária. A discussão mais interessante começa depois do aplauso: o melhor desempenho do ano nem sempre pertence ao maior talento de uma geração.

Na minha avaliação, desde que terminou a supremacia compartilhada por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé é o jogador que melhor reúne condições para assumir o posto de melhor do mundo. Velocidade, técnica, capacidade de decisão e repertório para desequilibrar. Ainda assim, continua sem a Bola de Ouro. Nesta edição, ficou novamente perto, em segundo lugar. Não há necessariamente um mistério nisso: a premiação julga uma temporada, e títulos, desempenho coletivo e grandes torneios pesam na escolha. Mas o desencontro entre talento e reconhecimento permanece.

Neymar conhece bem essa distância. Houve momentos, no Barcelona e no Paris Saint-Germain, em que seu futebol permitia colocá-lo acima de qualquer concorrente, inclusive Messi e Cristiano Ronaldo. Não durante toda a trajetória dos dois, evidentemente, mas em períodos de inspiração nos quais parecia merecer a consagração individual. Nunca veio. Hoje, a possibilidade de conquistar o troféu parece cada vez mais remota. Sua carreira ficará como exemplo de que o tamanho do talento e o tamanho da coleção de prêmios não são medidas equivalentes.

Vinícius Júnior conseguiu o reconhecimento da Fifa, com o The Best de 2024. Foi uma conquista relevante, sustentada por atuações decisivas, mas que tampouco encerrou a discussão sobre sua posição na hierarquia do futebol mundial. A alternância entre grandes partidas e jornadas apagadas ainda dificulta enxergá-lo como uma referência permanente acima dos demais. Uma temporada premiada reconhece o que foi feito; a supremacia exige repetição.

Kane, por sua vez, é um centroavante de enorme qualidade. Finaliza, participa da construção das jogadas e oferece muito mais do que presença na área. Ainda assim, se dividisse o palco com Romário ou Ronaldo, não o colocaria no primeiro degrau. Comparações entre épocas nunca são exatas, mas ajudam a explicar uma impressão: o futebol ganhou organização, intensidade e preparação física sem necessariamente ampliar a oferta de jogadores capazes de fazer o extraordinário parecer natural. Na minha leitura, o nível de genialidade disponível caiu.

Para o Brasil, o retrato é ainda mais incômodo. Vinícius foi o brasileiro mais bem colocado nesta Bola de Ouro, em 17º; Gabriel Magalhães terminou em 21º, e Marquinhos, em 25º. Ronaldo, que tantas vezes representou a excelência do nosso futebol, estava no palco para entregar o troféu ao inglês. A cena quase dispensa comentário: o Brasil compareceu à coroação com a grandeza do passado, enquanto seus jogadores atuais ficaram longe do pódio. Kane merece a festa. O futebol brasileiro precisa se perguntar por que tem participado tão pouco dela.

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