
O Vasco volta a apostar numa promessa de reconstrução. Os sócios aprovaram a venda de 90% da SAF para o empresário Marcos Lamacchia, com 4.675 votos favoráveis, 437 contrários e 48 abstenções. O associativo manterá 10% das ações. O resultado abre mais um capítulo de esperança para uma torcida que conhece bem esse roteiro: investidor novo, cifras bilionárias e a expectativa de recuperar o protagonismo. Foi assim com a 777 Partners. Agora, o desejo é que o desfecho seja outro.
A operação pode superar R$ 3 bilhões, considerando investimentos e compromissos financeiros ao longo dos anos — não se trata de um pagamento à vista pela compra das ações. A proposta prevê R$ 500 milhões para o futebol em cinco anos, em parcelas anuais corrigidas pela inflação, R$ 120 milhões para o centro de treinamento profissional e R$ 30 milhões para a estrutura da base. Inclui ainda a cobertura de um déficit de caixa projetado em R$ 1,5 bilhão nos primeiros cinco anos e obrigações relacionadas às dívidas.
As proteções contratuais são parte importante dessa nova tentativa. Estão previstas garantias de R$ 324 milhões e fiança pessoal de Lamacchia. O acordo também impede a venda da participação do investidor e a distribuição de dividendos por dez anos. São mecanismos para dar sustentação ao projeto e cobrar o cumprimento das promessas, justamente um dos pontos que mais preocupam depois da experiência anterior.
Em 2022, o anúncio da chegada da 777 também foi recebido como uma oportunidade histórica. O acordo previa R$ 700 milhões por 70% da SAF e a assunção de dívidas de até outros R$ 700 milhões. No papel, havia dinheiro e perspectiva de reorganização para um clube castigado por crises. A SAF alimentou a esperança de que o Vasco finalmente encontraria estabilidade para voltar a disputar títulos.
A realidade trouxe uma grande frustração. A relação se deteriorou, surgiram dúvidas sobre a capacidade financeira da investidora e o conflito chegou aos tribunais. Em maio de 2024, uma liminar suspendeu os efeitos dos contratos que garantiam o controle à 777 e devolveu o comando ao associativo. O projeto apresentado como solução se transformou em mais uma crise a administrar.
Agora, a aprovação dos sócios representa um avanço, mas a venda ainda depende de etapas judiciais, societárias e regulatórias. Entre as questões sob análise está o possível conflito de interesses decorrente dos vínculos familiares de Lamacchia com a presidente do Palmeiras, Leila Pereira. O entusiasmo tem, portanto, um caminho a percorrer antes de se converter em realidade. O vascaíno tem todo o direito de acreditar novamente. Depois da 777, porém, a medida do sucesso será o cumprimento dos compromissos. O filme começa com cenas conhecidas. Que desta vez tenha um final feliz