segunda-feira, 10 de agosto de 2026
HIV avança entre populações negras e vulneráveis no Brasil
09/08/2026

Embora os números de novos casos de HIV no Brasil apresentem estabilidade, a epidemia continua em curso e afeta de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. Em 2024, foram registradas 39.216 detecções de infecção pelo HIV no país, ante 38.222 em 2023, de acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Os dados mostram que, por trás da aparente estabilidade, persistem profundas desigualdades raciais, sociais e territoriais quando as informações são analisadas com mais atenção.

Os indicadores revelam que a epidemia tem impactado cada vez mais a população negra. Em 2014, pessoas brancas representavam a maior parcela dos casos registrados de HIV, com 49% das notificações. Dez anos depois, o quadro se inverteu: em 2024, 59,7% dos casos notificados ocorreram entre pessoas pretas e pardas, enquanto a participação das pessoas brancas caiu para 36,8%.

As desigualdades também aparecem nos dados sobre mortalidade. Em 2024, 62,2% das mortes relacionadas ao HIV/AIDS foram registradas entre pessoas negras, sendo 51,3% entre pardos e 10,9% entre pretos. Entre pessoas brancas, o percentual foi de 36,6%.

“A epidemia não acabou. Ela continua avançando justamente sobre as populações que enfrentam mais barreiras a serviços de saúde, inclusive aquelas que têm menos acesso a inovações médicas e de prevenção ao vírus”, alerta Antonio Flores, infectologista de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Sobre prevenção, Flores está se referindo, principalmente, ao lenacapavir, tecnologia médica apontada como uma das maiores revoluções na prevenção ao HIV nas últimas décadas. O produto injetável só requer duas doses ao ano e apresenta eficácia de quase 100% na prevenção ao HIV.  

Embora o lenacapavir tenha potencial para transformar a resposta global à epidemia, ele está inacessível para grande parte da população por conta dos preços proibitivos, licenciamento restritivo e modelos de distribuição excludentes. “Atualmente, a Gilead, farmacêutica dona da patente, controla totalmente quem pode receber o lenacapavir, onde ele está disponível e sob quais condições”, explica.

A empresa comercializa o produto por US$ 28.000 ao ano por paciente nos EUA, embora ele pudesse ser produzido por menos de US$ 40. Algumas versões genéricas mais acessíveis devem chegar ao mercado já no próximo ano, mas apenas fabricantes selecionados terão permissão para produzi-las, e sua venda será restrita a determinados países. Brasil, Argentina, México e Peru, onde foram realizados os ensaios clínicos do medicamento, ficaram totalmente excluídos desse acordo.

Demanda supera oferta

Segundo MSF, mesmo organizações que atuam diretamente na resposta ao HIV ainda não conseguem acessar o lenacapavir em quantidade suficiente. Há um ano, MSF tenta comprar o injetável diretamente da fabricante para utilização em seus programas médicos, mas a empresa se recusa a vender. A farmacêutica orienta MSF a acessá-lo por meio do Fundo Global. 

Para os especialistas, o debate sobre o lenacapavir vai muito além dos aspectos científicos. A questão central é quem terá acesso à inovação. Em um mundo onde a epidemia afeta de forma crescente pessoas negras, de menor renda e residentes em áreas periféricas, a chegada de novas tecnologias só terá impacto real se elas forem disponibilizadas justamente para quem mais precisa delas.

“O desafio não é apenas desenvolver medicamentos inovadores. É garantir que eles cheguem às populações mais vulneráveis e aos países mais afetados pela epidemia. Sem acesso, inovação não salva vidas”, conclui Flores.

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