Teerã e Washington dialogam por um acordo de conveniências, mas o fantasma da guerra ainda paira sobre o Oriente Médio, pois Trump não deseja parceiros, ele exige subserviência

Trump quer o mundo aos seus pés. No comando da principal superpotência mundial, ele está seguro de que todos os seus desejos podem ser tornar realidade. Em seus delírios de grandeza, o agente laranja acredita que a América pode controlar o mundo, dando as cartas que quiser no grande cassino geopolítico global.
Ninguém duvida que a águia americana voa alto na arena internacional. Mas mesmo um predador de primeira grandeza tem suas limitações. O maior exemplo de que os EUA não podem tudo talvez seja a Ucrânia, seu ticket master na corrida maluca pelo Nobel da Paz. Em que pese os esforços, Trump ainda não alcançou a conciliação entre russos e ucranianos. Com apoio dos europeus, cuja russofobia tem sido notável, Zelensky resiste a um acordo de paz realista, que reconheça a precedência das forças russas nos campos de batalha.
Outro bom exemplo é a Venezuela. O espetacular sequestro de Maduro, que certamente ainda renderá um filme com Wagner Moura, logrou retirar o caricato ditador do poder, mas o regime segue firme nas mãos de Delcy Rodriguez. Embora o mercado venezuelano esteja de volta ao planejamento estratégico das grandes petrolíferas americanas, o país continua a vender petróleo para os chineses, que, desde 2008, operam grandes campos no mar do Caribe por meio de joint-ventures com a estatal PDVSA. Maduro caiu, mas a China segue forte na Venezuela.
O capítulo mais recente é o Irã. A violência letal contra os opositores do regime dos aiatolás disseminada na primeira quinzena de janeiro foi assustadora. Fontes independentes relatam a utilização de drones, franco-atiradores e forças de elite da Guarda Revolucionária na repressão aos manifestantes. Todavia, subjacente à justa peleja de iranianos por democracia e liberdade, está o dedo podre de Washington, cujo incentivo aberto aos protestos tem como contrapartida perversa o acirramento da própria repressão.
É importante dizer: assim como na Venezuela, a sublevação no Irã tem sido incentivada abertamente pelos EUA, certos de que qualquer fissura interna serve aos seus interesses. Esse apoio explícito tem como efeito colateral reforçar o discurso defensivo do regime teocrático, que reprime opositores ao mesmo tempo que abre canais de negociação com a Casa Branca. Antes que o leitor estranhe o tricô entre Washington e Teerã, mediado por países como Arábia Saudita, Catar e Omã, é importante destacar que a tensão entre Iran e EUA não possui conteúdo moral nem humanitário. É só política. O Irã ocupa uma posição-chave no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio: controla rotas estratégicas, influencia o fluxo do petróleo, ameaça a segurança de Israel e desafia a arquitetura de poder construída por Washington na região.
Portanto, conter o Irã é garantir previsibilidade aos mercados, proteger aliados e impedir que um ator autônomo escape ao controle estadunidense. Washington não deseja uma guerra aberta contra o regime dos aiatolás, mas o discurso de que o país tem que garantir sua segurança e lutar pelos seus interesses, sejam quais forem, custe o que custar, tem agradado a muitos eleitores e pode legitimar uma nova guerra. Neste contexto, as manifestações entram como pretexto: o petróleo e a hegemonia são o motivo central. Além disso, o Irã tem algumas das maiores reservas de lítio do mundo, com estimativas que o colocam entre os principais detentores desse metal usado em baterias de veículos elétricos e equipamentos eletrônicos e armas de alta tecnologia.
Como aconteceu na Venezuela, as garras trumpistas se abatem sobre os persas porque o Irã é um ator indócil num tabuleiro estratégico que os americanos querem previsível. O imperialismo trumpista exige subserviência. Petróleo, gás, rotas estratégicas, minerais críticos e posição geográfica fazem do Irã um prêmio alto demais para ficar fora da órbita de Washington. Um regime simpático aos EUA – ainda que teocrático ou ditatorial – significaria acesso facilitado a recursos e alinhamento energético, além de enfraquecer a presença de russos e chineses no Oriente Médio.
Dessa forma, as manifestações dos iranianos por liberdade e democracia entram como oportunidade, não como causa. Elas são instrumentalizadas como discurso moral para um velho objetivo: quebrar a autonomia iraniana e substituir um poder hostil por um governo funcional aos interesses estadunidenses. Despudorado, Trump rasga os tratados de Direito Internacional, rompe com a ordem multilateral, enfraquece a governança global e esgarça os limites do poder americano. Como num xadrez macabro, todos os seus movimentos são orientados para a maximização do poder. Portanto, seja no Irã, na Venezuela ou na Ucrânia, a América não joga pela liberdade ou pela democracia, mas por controle e poder.