
A cena arrancou risos, memes e comentários irônicos nas redes sociais, mas revela algo mais profundo sobre o futebol moderno. Durante entrevista em Lima, o técnico brasileiro Mano Menezes, recém-chegado à seleção do Peru, misturou português com espanhol numa tentativa clara de se comunicar com o público local. O “portunhol” improvisado viralizou, virou piada, mas também mostrou um ponto que costuma passar despercebido: a língua também faz parte do jogo.
A reação imediata, porém, contrasta com uma leitura mais generosa do episódio. Ao contrário do que muitos podem pensar, há ali um gesto de adaptação. Pode ser rudimentar, pode soar estranho, mas indica esforço. Em um ambiente cada vez mais globalizado, onde técnicos cruzam fronteiras com frequência, tentar falar a língua local é mais do que uma formalidade – é um sinal de respeito e integração.
O futebol está cheio de exemplos que ajudam a dimensionar essa questão. Um dos mais lembrados no Brasil é o de Joel Santana, que virou personagem folclórico ao comandar a seleção da África do Sul com um inglês precário. Para muitos, o “papai” Joel mostrou personalidade, isto sim!
Em outra ponta está o italiano Carlo Ancelotti. Ao assumir a seleção brasileira, em maio do ano passado, ele prometeu ao presidente Samir Xaud aprender português rapidamente. De fato, ele tenta. Ainda com dificuldades, mistura estruturas, busca palavras, se arrisca diante das câmeras. O resultado não é perfeito, longe disso, mas segue a mesma lógica: adaptação em andamento, visível, pública.
Nem todos seguem esse caminho. O argentino Jorge Sampaoli, que acumulou passagens por clubes brasileiros como Santos, Atlético MG e Flamengo, tornou-se um caso à parte. Mesmo após anos trabalhando no país, nunca demonstrou interesse em falar português. O baixinho é marrento – e um tanto ou quanto desrespeitoso conosco.
No extremo oposto está um dos maiores nomes do futebol contemporâneo. Pep Guardiola construiu uma carreira marcada não apenas por títulos, mas também por um rigor quase obsessivo com detalhes. Quando assumiu o Bayern de Munique, tomou uma decisão simbólica: só iniciou o trabalho após aprender alemão. Aprendeu rápido e ganhou muitas taças.
Esses exemplos mostram que o domínio do idioma não é um detalhe periférico. Ele influencia a relação com o elenco, com a torcida, com a imprensa e até com o ambiente interno dos clubes ou seleções.
Entre tropeços, sotaques carregados e construções improvisadas, o idioma segue sendo mais um desafio para técnicos que cruzam fronteiras. Alguns transformam isso em prioridade. Outros ignoram. E há aqueles, como Mano Menezes, que começam pelo caminho mais visível: tentando, mesmo que de forma imperfeita, se fazer entender.
