sexta-feira, 24 de abril de 2026
Ecos dos slogans: Entre a história e a repetição
23/04/2026

“Tornar a Alemanha grande de novo” não foi apenas um grito patriótico: foi a senha de entrada para um projeto de poder conduzido por Adolf Hitler, que transformou frustração coletiva em combustível político. A mesma engenharia simbólica se viu na Itália de Benito Mussolini, onde a tríade “Deus, Pátria e Família” serviu de moldura moral para a centralização autoritária.
Esses slogans não surgem do acaso. Eles aparecem quando há crise, descrédito institucional e sensação difusa de perda. Prometem retorno a um passado idealizado, ainda que esse passado nunca tenha existido como se anuncia. São frases curtas, emocionalmente carregadas e politicamente eficientes.
Décadas depois, a expressão “Make America Great Again”, associada a Donald Trump, reativou essa lógica. Não como cópia direta do nazismo ou do fascismo — o que seria simplificação —, mas como reaproveitamento de uma fórmula: a nostalgia como ferramenta política.
No Brasil, a importação desse repertório não é coincidência. Parte da direita contemporânea bebe diretamente da fonte norte-americana. Há influência de estratégias de comunicação, marketing político e até de redes de apoio ideológico transnacionais. O slogan viaja mais rápido que a reflexão.
Mas o que está por trás disso?
Primeiro, a eficácia. Slogans simples organizam sentimentos complexos. Em vez de discutir reformas estruturais, oferecem uma promessa imediata: “resgatar” algo perdido.
Segundo, a construção de inimigos difusos. Quando se diz que “nada presta” e que “tudo precisa ser refundado”, abre-se espaço para deslegitimar instituições — Congresso, Judiciário, imprensa — e concentrar poder em figuras que se apresentam como salvadoras.
Terceiro, a política como identidade emocional. Não se trata apenas de ideias, mas de pertencimento. Repetir o slogan vira uma forma de se reconhecer em um grupo.
Isso significa que quem repete esses discursos está consciente de sua origem histórica? Nem sempre. Muitos expressam apenas indignação legítima com problemas reais. O risco começa quando essa indignação é canalizada para soluções simplistas que flertam com o autoritarismo.
A história não se repete como farsa automática, mas rima — e, às vezes, rima alto demais para ser ignorada.
O desafio não é silenciar slogans, mas compreendê-los. Porque toda palavra de ordem carrega um projeto — explícito ou oculto. E, em política, o que parece apenas um eco pode ser o início de um roteiro já conhecido.

canal whatsapp banner

Compartilhe: