
Eleito governador de Minas Gerais no primeiro turno, Cleitinho Azevedo (Republicanos) deu uma demonstração de maturidade administrativa antes mesmo de assumir o cargo. Ao questionar o uso de recursos de empresas estatais para patrocinar clubes de futebol, colocou no centro da discussão uma escolha que todo governante precisa enfrentar: definir prioridades para o dinheiro público.
A iniciativa teve consequência concreta. Após representação do governador eleito, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) suspendeu cautelarmente patrocínios de R$ 32 milhões previstos para Cruzeiro, Atlético e América. A decisão foi proferida na terça-feira (3) pelo conselheiro em exercício Licurgo Mourão. O mérito ainda será julgado. (ge.globo.com)
Conhecido pela comunicação direta e pela forte presença nas redes sociais, Cleitinho venceu a eleição em outubro com 55,40% dos votos válidos. Seu estilo pode provocar críticas, mas, neste episódio, o argumento apresentado merece ser examinado para além das simpatias partidárias e das rivalidades de arquibancada. (tse.jus.br)
Em vídeo, ele se dirigiu diretamente aos torcedores para explicar por que procurou o tribunal. Disse amar o futebol, mas questionou a destinação de milhões de reais de empresas estaduais a sociedades anônimas do futebol, as SAFs, de natureza privada.
“O que faz um governo pegar mais de 30 milhões através de empresas estatais como Cemig e Codemig e patrocinar esses times?”, perguntou.
O pacote havia sido anunciado em setembro pelo governador Mateus Simões (PSD), então candidato à reeleição, com a justificativa de apoiar os clubes diante da perda de receitas das casas de apostas. A previsão era destinar R$ 15 milhões ao Cruzeiro, R$ 15 milhões ao Atlético e R$ 2 milhões ao América. Também havia perspectiva de ampliação da iniciativa para Athletic e Uberlândia. (hojeemdia.com.br)
Cleitinho classificou o anúncio como eleitoreiro. No desabafo, afirmou que a equipe de transição encontra dificuldades financeiras e relatou preocupações com o pagamento dos servidores a partir de janeiro e com a alimentação escolar. São alegações do governador eleito, que as apresentou como exemplos de necessidades mais urgentes.
“Todo mundo sabe o amor que eu tenho pelo futebol. Só que a gente tem outras prioridades”, declarou.
O Tribunal de Contas identificou questões que vão além da discussão política. Segundo a decisão, faltam estudos técnicos e critérios objetivos que demonstrem o retorno dos patrocínios para as empresas envolvidas — Cemig, Codemge, Codemig e Invest Minas. O relator apontou indícios de que a iniciativa buscava recompor receitas dos clubes, sem demonstrar adequadamente sua relação com os interesses empresariais das patrocinadoras. (itatiaia.com.br)
Esse é um ponto essencial. O fato de um clube ser privado não torna automaticamente irregular um patrocínio de estatal. Mas uma operação dessa natureza precisa demonstrar finalidade empresarial, retorno esperado e critérios transparentes. A popularidade do futebol, por si só, não responde a essas exigências.
A suspensão também não significa que os R$ 32 milhões tenham sido transferidos para escolas ou para a folha de pagamento. A medida impede a assinatura de novos contratos e determina a interrupção dos pagamentos caso os acordos já tenham sido formalizados, enquanto o tribunal examina sua legalidade. (ge.globo.com)
Ainda assim, a posição de Cleitinho tem mérito político e administrativo. Contrariar interesses de clubes com milhões de torcedores exige disposição para suportar cobranças. Ao explicar sua decisão, o governador eleito apresentou um argumento compreensível até para o torcedor mais apaixonado: quem governa precisa responder pelas necessidades de toda a população.
O desempenho de sua futura gestão será medido pelas decisões e pelos resultados. Neste primeiro movimento, porém, Cleitinho mostrou compreender que o compromisso de um governador ultrapassa as cores da própria camisa.
