quarta-feira, 22 de julho de 2026
Breves dias sem freio — a poesia em estado de permanência
11/08/2025

Fiquei muito honrado em receber um exemplar de Breves dias sem freio: poemas escolhidos (1967-2024), enviado pelo próprio autor, Sérgio de Castro Pinto. Mais honrado ainda por ter sido por ele tratado como poeta, quando me considero apenas um simples versejador de língua ferina contra as injustiças da vida.

Nesta antologia, Sérgio nos entrega mais que um livro — oferece uma travessia. São quase seis décadas de versos que testemunham o amadurecimento de uma voz poética rara, capaz de transitar da delicadeza do instante ao peso existencial do tempo, sem perder o frescor da invenção.

Os poemas de Sérgio são grandes demais para uma resenha pequena. Tome-se como exemplo “Acautelai-vos, ó jovens”, uma espécie de Oração aos moços em letras minúsculas:

*”se tudo e todos
fogem
dos velhos.

se até mesmo
as impressões
digitais

fogem dos seus dedos,

acautelai-vos, ó jovens,
pois os velhos
planejam

o crime
sem vestígios,
o crime mais que perfeito”.*

A antologia, ao reunir poemas de diferentes fases, permite ao leitor observar como o autor manteve uma fidelidade à sua própria pulsação lírica, ao mesmo tempo em que reinventou caminhos. Há, na tessitura de suas imagens, a precisão de quem enxerga a poesia como alquimia: o banal se transfigura em metáfora luminosa, o cotidiano se abre como se contivesse o segredo do mundo.

Breves dias sem freio é, ao fim, um convite à contemplação e à resistência contra a pressa do mundo. É um livro que pede leitura devagar, para que cada imagem tenha tempo de se abrir como flor tardia. Ao fechar a última página, fica a certeza de que a poesia, como o próprio Sérgio, não conhece freios: continua, silenciosa e pulsante, no leitor que a acolhe.

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