
Se uma pesquisa de opinião fosse realizada hoje, dificilmente haveria margem para dúvidas. Carlo Ancelotti e Leonardo Jardim disputariam o primeiro lugar no ranking dos técnicos mais impopulares do país. É curioso perceber que ambos chegaram cercados pela mesma expectativa: foram contratados para resolver problemas que seus antecessores, supostamente, já não conseguiam resolver. Poucos meses depois, passaram a ser vistos como parte do problema.
O caso de Carlo Ancelotti é emblemático. A CBF decidiu fazer um investimento sem precedentes para trazer aquele que era apontado como o melhor treinador do mundo, oferecendo o maior salário já pago a um técnico de seleção. A lógica era simples: um profissional desse nível reduziria os erros, daria estabilidade ao time e recolocaria o Brasil entre os favoritos.
Mas aconteceu justamente o contrário.
Depois da eliminação diante da Noruega, o próprio Ancelotti admitiu que interpretou mal o jogo e que as mudanças feitas durante a partida contribuíram para a derrota. A sinceridade merece respeito. O erro, porém, pesa muito mais quando parte daquele que foi contratado exatamente para não errar. Se um treinador comum pode falhar na leitura de uma partida, o técnico mais caro do mundo foi contratado para fazer a diferença justamente nesses momentos.
No Flamengo, o roteiro apresenta muitas semelhanças.
A diretoria resolveu demitir Filipe Luís mesmo depois de uma sequência de conquistas e de um trabalho amplamente aprovado pela torcida. A decisão foi baseada na convicção de que Leonardo Jardim entregaria um futebol ainda melhor. Era uma troca de um técnico vencedor por outro de currículo internacional.
Até agora, a aposta não se confirmou.
Os recentes empates contra São Paulo e Internacional aumentaram a distância para o Palmeiras na luta pelo Campeonato Brasileiro e ampliaram a insatisfação da torcida. Hoje, muitos rubro-negros perguntam se havia, de fato, motivo para interromper um trabalho que colecionava títulos para iniciar outro que ainda não conseguiu apresentar resultados compatíveis com a expectativa criada.
Ancelotti e Leonardo Jardim continuam sendo profissionais de enorme prestígio. O currículo de ambos dispensa apresentações. Mas o futebol tem uma regra implacável: reputação compra tempo, não compra aprovação.
Quando um clube ou uma seleção decide investir pesado para trocar de comando, cria automaticamente uma expectativa proporcional ao investimento. O novo treinador não precisa apenas vencer. Precisa mostrar que a mudança valeu a pena.
Neste momento, a sensação é exatamente a oposta. E talvez por isso os dois compartilhem um título que nenhum grande técnico gostaria de ostentar: o de protagonistas do maior índice de rejeição do futebol brasileiro.
