y la contemplación de ese inmediato
rostro incesante, intacto, incorruptible,
será para los réprobos, Infierno;
para los elegidos, Paraíso.
Jorge Luis Borges
O primeiro — senão o único — pecado é a comparação. Foi o que rachou o homem ao meio — na dualidade. Antes, havia presença; depois, medida. Antes, unidade; depois, distância. E, na distância, nasceu o ego — essa necessidade de se justificar, de se afirmar, de se pôr como régua do mundo.
O homem passou a olhar o real como quem olha um espelho — mas não para se reconhecer, e sim para se comparar. E, ao comparar-se, perdeu-se. O ego nasce disso: da tentativa de se ver de fora, de julgar-se, de pesar-se, de corrigir-se segundo critérios que ele mesmo fabrica a partir dos sentidos. É o homem querendo fundar o próprio fundamento — e, no fundo, querendo ser Deus.
Desde então, a vida virou um tribunal. Tudo pede validação. Tudo exige medida. Tudo precisa ser dito certo ou errado, digno ou indigno, aceitável ou descartável. Julgar tornou-se condição humana.
Mas há um erro nisso: Deus não julga como o homem julga. Deus não pesa, não compara, não valida. Deus se apresenta. E, ao se apresentar, torna-se espelho — não um espelho deformado pelas paixões, mas um espelho fiel,positivo, que devolve ao homem aquilo que ele é, sem acréscimos, sem cortes, sem defesa.
O julgamento não vem de Deus. Vem do homem, ao ver-se. O reflexo traz as cores originais; o homem traz as cores adquiridas. O choque entre essas cores é o sofrimento — ou a glória. É nesse choque que tudo se decide.
O Bom Ladrão, pendurado na própria culpa, não compara, não se defende, não se justifica: reconhece. E, ao reconhecer, abandona o centro. Não mata o ego — deixa de sustentá-lo — e, nesse abandono, encontra o paraíso.
Maria Madalena não mede: chora, procura um corpo e encontra um nome. “Maria.” Nesse instante, não há passado nem identidade construída; há reconhecimento. O ego não resiste à proximidade — dissolve-se.
Pedro prometeu mais do que podia ser, caiu antes de si mesmo, negou, chorou. O que morre nele não é o erro — é a imagem que fazia de si. E, quando vê, já não fala. O homem que se afirmava aprende a calar. O ego não desaparece — é desarmado.
João vê… e crê. Sem cálculo, sem discurso, sem defesa. Nele, o ego não chega a governar — por isso permanece. É o olhar que não se interpõe entre si e o real.
Os discípulos de Emaús caminham discutindo: “esperávamos…”. É o homem comparando o fato com a expectativa, medindo o real com o que imaginava que ele deveria ser. Cristo caminha ao lado — e não é reconhecido — porque o ego já decidiu. Só no gesto, no partir do pão, os olhos se abrem. Não por argumento, mas por reconhecimento. E, no instante em que veem, Ele desaparece. O espelho cumpriu sua função.
Tomé exige tocar. Quer medir o real com as mãos, quer validar. Cristo não discute — oferece-se. E, ao tocar, Tomé perde a régua. Não valida — é absorvido. “Meu Senhor e meu Deus.” O ego não é destruído — é recolocado. Já não governa.
E então Judas. Também viu. Também reconheceu. Tanto que devolveu as moedas. Mas não suportou.
Aqui está o abismo: não foi a traição que o perdeu — foi o juízo sem redenção. Judas reconhece e se condena. Não aceita ser menor que a verdade. Não aceita que haja perdão maior que o seu erro. Quer ser a medida — até do próprio mal. E, assim, o ego não cai. Fecha-se.
Enquanto Pedro chora e se abre, Judas vê e se encerra.
A ressurreição não é apenas um evento. É o momento em que o real se apresenta sem véu. E, diante dela, cada homem reage conforme pode: uns reconhecem antes do ego, outros pela dor, outros pelo amor, outros pelo caminho, outros pelo toque, outros na última hora — e há os que reconhecem e não conseguem viver com o que viram.
Não basta reconhecer a verdade. É preciso suportá-la. E mais: nem todo encontro com o real salva — alguns esmagam.
Cristo vivo não é conceito. É estado. É quando o homem deixa de se medir e passa a se ver — sem comparação, sem validação, sem necessidade de julgar para existir. O ego não desaparece — mas perde o trono.
E, nesse instante raro, o homem não se projeta mais como espelho. Ele apenas sente. E, sentindo, sabe: ou aceita ser menor que a verdade… ou tenta ser maior — e se perde.
Seja leve para as suas asas.
De Prasada: Poemas em Azul
A Cruz
Não era o madeiro:
eram asas em Jesus.
