A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada.
É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes, viridentes, da caliça de 1890 ou 1900.
De nenhuma raiz brotaram essas folhas. Não há lugar para raiz e parede, a meio metro do solo, ainda mais quando a construção não tem menos de cem anos.
De alguma semente? Que passarinho teria se interessado em inocular numa fresta de parede, incômoda e infecunda, o germe de castanhola, árvore mais de pousar que de alimento?
Só ao equilíbrio do beija-flor, parado nas asas, seria permitida essa operação. Mas a fuliginosa Maciel Pinheiro de auto-peças e oficinas não é lugar para beija-flores.
No mínimo, a castanhola entra na massa, na argamassa de cal e barro batidos, pela colher de alguém que, em 1990, já era pedreiro. Entrou semente, embrião dos muitos e muitos que proliferavam ao redor da fonte de Gravatá (sítio da antiga Maciel), e ficou esperando a hora de brotar, acondicionada entre tijolos, privada de ar e de sol pelo reboco forte e ultra-resistente.
Está aqui, o caule não tem nada de superficial, vem de dentro, germinado da própria caliça. Foi na massa e ali ficou. Passou o Império, entrou a República, que ficou Velha, formou-se para sempre os apitos do vapor chamando para os desembarques do Sanhauá; encobriu-se no infinito a sirene da Alfândega, os suspiros ante os balcões de seda importada; o vozerio dos cafés políticos, a euforia epitacista, os tropéis e as bombardas de 30… Tudo isso e mais o ruge-ruge promíscuo do cabaré em que se transformou a primitiva Rua das Convertidas.
Rua do Conde d’Eu.
Rua por onde passaram os pregões do açúcar demerara, os pileques dos capitães, agentes e consignatários dos navios surtos no rio ou em Cabedelo, as manchetes pioneiras do jornal de Arthur Achilles.
Depois, tudo se mudou… O Porto se mudou para a barra, os balcões de seda e cheviot, a Alfândega, os tugúrios conspiratórios, as Ritas Maias, Osanas e Antoninhas, muitas paredes desboroando, tudo se desboroando, o tempo abrindo suas chagas em paredes que, numa primeira leitura, não passam de ruínas.
Convenço-me agora (e de forma irrecusável) de que a castanhola que vem rebentando, emergindo da ruína, é verdadeiramente uma embarcação de 1901, castanhola perdida numa colher de argamassa do começo do século. Incubada e vedada, ela estava esperando o momento propício, o que parecia mais estéril e obscuro, o exato momento em que o reboco se destampa, para consumar em folha a gravidez de um século. Rebentou verde o que não parecia mais que pobre escombro. Da ferida de cal nasceu a folha. Quem sabe se uma folhazinha do jardim fundado por Beaurepaire Rohan, que começava nas traseiras do Palácio e vinha terminar nas encostas do mangue, aproveitadora deste sol intemporal de fim de século…