Estão remodelando a Bica. Digo remodelando, palavra em desuso, mas tudo que sei vem pela televisão. Nunca mais fui à Bica. Estão remodelando mesmo? Na gestão anterior, do prefeito Mangueira, fizeram qualquer coisa. Como em todas as gestões anteriores. Agora me falam na introdução, no mais verde dos nossos parques, de uma novidade em inglês, espécie de tobogã para ciclistas. Será certo isto?
Imagino a Bica infensa a essas modernidades. Quanto mais primitiva, mais verde, mais água, mais vergel, mais Bica. Essa coisa nova de nome inglês pode ser uma impureza.
Mas fiquemos na antiga Bica, no Arruda Câmara do Dr. Walfredo, do grande Dr. Walfredo. Bica que foi retiro afrodisíaco das minhas carências juvenis, onde a leitura era a companhia mais.
excitante. Foi lá, estirando a preguiça num banco sombreado de eucaliptos e paus d’arcos, que percorri, saudoso de mim e dos meus brejos de cana, quase toda a Várzea de Zé Lins, sublimada, a meu gosto particular, pela “Pureza” do doutor magro e da moça nua, novela pura, sem outros artifícios a não ser aquele do ideal flaubertiano de fazer uma obra de arte do nada, pura estesia.
Foi lá onde aprendi a ler Augusto dos Anjos, não o poeta da morte e da melancolia, como saudou-o a crítica geral, mas o poeta da vida, inimigo inconciliável do verme, do patológico, da morte. Foi ouvindo a Bica, com o livro de Augusto aberto, que vi, ou melhor, que senti “a alma dos vegetais rebentar, inteira, de todos os corpúsculos do pólen”.
Não há nada de podridão: “Os ventos vagabundos batem, bolem, nas árvores. O ar cheira. A terra cheira. “Em vez de sepulcro, de uma caveira para outra caveira”, “a câmara nupcial de cada ovário se abre. No chão coleia a lagartixa. Por toda a parte a seiva bruta esguicha”.
Leio, no “Eu”, que “houve uma época de flores”, esmagada ou abafada por “uma atmosfera má de incômoda hulha”. A partir daí “o aziago ar morto a morte fede”. O engenho do poeta é engolido pelas moendas vorazes da usina capitalista e, em vez de flores “os musgos, como exóticos pintores, pintam caretas verdes nas taperas. O cupim negro broca o âmago fino do teto e traça trombas de elefantes. O lodo obscuro trepa-se nas portas e as largatixas, dos esconderijos, estão olhando aquelas coisas mortas.”
São leituras conservadas no tempo, vindas à luz associadas à ideia de parque, de Bica, de Arruda Câmara, essa fonte que deveria ser sagrada para a Capital, não somente pela lenda que lhe dá nome, narrada por Coriolano e Walfredo Rodriguez, mas pelo refúgio histórico e obrigatório que se tornou para o povo. É a única riqueza ou luxo do povo nos seus domingos de folga.