Usuários de medicamentos para emagrecimento, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, pretendem gastar 14% menos com balas e doces e cerca de 10% menos com chocolates, segundo pesquisa publicada em agosto de 2026 pelo Boston Consulting Group, com mais de 1.500 participantes em nove mercados. O levantamento também aponta a intenção de pedir porções menores ao comer fora. Para confeitarias e cafeterias, esses sinais abrem uma discussão sobre como adaptar a oferta sem perder receita.
Felipe Noronha, CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação e sete unidades próprias em São Paulo, avalia que a primeira decisão é distinguir quantidade e frequência de compra. “Quem pede uma sobremesa menor pode continuar frequentando a loja e valorizando aquele produto. Quem deixa de visitar o estabelecimento exige outra análise. Tratar os dois comportamentos da mesma forma pode levar a empresa a reduzir porções quando deveria rever preços, variedade ou oportunidades de consumo”, afirma.
Os resultados internacionais representam intenções de gasto, não uma queda comprovada nas vendas das confeitarias brasileiras. Para orientar mudanças, precisam ser confrontados com os pedidos de cada estabelecimento, considerando fatores como orçamento e finalidade da compra.
Adaptar o cardápio começa por entender o pedido
O tema já entrou na estratégia das grandes fabricantes. Em agosto de 2026, a Reuters mostrou que a Nestlé desenvolve produtos direcionados aos usuários desses medicamentos. No mesmo mês, a agência informou que a Hershey ampliou a presença de petiscos salgados em sua oferta para o Halloween americano, em resposta a mudanças alimentares associadas também ao avanço desses tratamentos.
Para o executivo da Doce Magia, esses movimentos servem como sinais para investigação, e não como modelos a serem reproduzidos. “Uma confeitaria não precisa criar uma linha inteira porque uma grande indústria fez isso. Precisa entender se o cliente procura outro tamanho, uma composição diferente ou apenas mais liberdade para escolher. Acrescentar produtos sem essa leitura pode aumentar o estoque, o desperdício e o trabalho sem trazer uma venda adicional”, explica.
Na avaliação do empresário, pedidos recorrentes para dividir fatias e preferência por sobremesas individuais podem orientar testes, embora não permitam atribuir o comportamento ao uso de medicamentos. A ocasião também importa: o doce que acompanha um café atende a uma necessidade diferente da de um bolo encomendado para uma celebração.
Porção menor não significa custo pela metade
A discussão sobre tamanho precisa chegar à estrutura de custos. Para Noronha, ingredientes, embalagem, atendimento e tempo de produção devem entrar no cálculo antes da definição do preço. “Metade da porção não significa metade do custo. O trabalho para finalizar cada unidade pode até aumentar. É necessário saber quanto sobra por venda e quantas unidades a equipe consegue preparar. Um produto menor precisa caber no orçamento do consumidor e sustentar a margem da empresa”, ressalta.
O sócio da rede defende começar com poucos itens e acompanhar a recompra, o desperdício e o efeito sobre as demais vendas. Um lançamento precisa demonstrar se atrai novas compras ou apenas substitui uma opção que já era rentável.
Preservar a identidade da confeitaria também deve orientar a decisão. “A curiosidade pode gerar a primeira compra. A volta do cliente ajuda a mostrar se existe demanda duradoura. Podemos mudar o tamanho ou a apresentação, mas precisamos preservar o sabor e a experiência que justificam a escolha pela marca. A adaptação só faz sentido quando funciona para o consumidor e para a operação”, conclui o CEO.
Sobre Felipe Noronha
Felipe Noronha é CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação no Alto Tietê, em São Paulo. Ele lidera o atual ciclo de transformação da empresa, conduzindo o processo de profissionalização, estruturação e expansão da marca.