Uma revisão de estudos identificou que 89,9% dos pacientes que receberam radioterapia pela segunda vez não apresentaram retorno do câncer de próstata na região tratada após dois anos. O resultado é um dos principais achados do SPARE, publicado na revista científica The Prostate e apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Radioterapia (ASTRO), realizada de 26 a 30 de setembro de 2026, em Boston, nos Estados Unidos. O encontro é considerado o maior congresso mundial da especialidade.
Os pesquisadores avaliaram 384 pacientes e três indicadores para acompanhar os resultados do tratamento: o controle do tumor na região novamente irradiada, a sobrevida dos pacientes sem desenvolvimento de metástases e a ausência de sinais de retorno da doença identificados pelo PSA, marcador medido por exame de sangue. O controle local de 89,9% não significa, portanto, que esses pacientes ficaram completamente livres do câncer. Após dois anos, a estimativa de pacientes vivos e sem metástases foi de 84,6%, enquanto 62,5% não apresentaram aumento do PSA que caracterizasse o retorno da doença.
Cada percentual foi calculado a partir dos estudos que apresentavam informações sobre aquele indicador, não correspondendo necessariamente aos mesmos pacientes. A revisão também investigou os efeitos colaterais graves, tanto os que surgiram durante ou logo após o tratamento quanto aqueles identificados posteriormente. A frequência dessas complicações foi baixa, sendo as mais comuns as urinárias tardias, que podem surgir meses ou anos após a radioterapia, registradas em 3,3% dos pacientes.
Os resultados são destacados pela Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) como parte dos avanços no tratamento do câncer de próstata, tema que ganha visibilidade durante o Novembro Azul. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 77.920 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, o equivalente a aproximadamente 213 diagnósticos por dia. O câncer de próstata representa 30,5% dos novos casos de câncer entre homens no país, desconsiderando os tumores de pele não melanoma.
“Durante muito tempo, repetir a radioterapia em uma região já tratada foi considerado um procedimento de alto risco, principalmente pela possibilidade de danos aos órgãos próximos. O desenvolvimento de técnicas mais precisas está permitindo reavaliar essa possibilidade em pacientes selecionados, especialmente quando o câncer reaparece apenas na próstata ou em uma região próxima”, explica Fábio Ynoe de Moraes, radio-oncologista, membro da SBRT e um dos autores do estudo.
Como funciona o tratamento
O SPARE é uma revisão sistemática com metanálise, modalidade de pesquisa que reúne resultados de diferentes estudos científicos para obter uma visão mais abrangente sobre determinado tratamento. Os pesquisadores analisaram 30 grupos de pacientes provenientes de 29 estudos, todos relacionados à utilização de uma segunda radioterapia estereotáxica em casos de recorrência do câncer de próstata.
A técnica, chamada radioterapia estereotáxica corporal (SBRT) ou radioterapia ablativa estereotáxica (SABR), permite administrar doses elevadas de radiação com grande precisão, geralmente em poucas sessões. O objetivo é atingir o tumor e reduzir, tanto quanto possível, a exposição de estruturas próximas, como a bexiga e o reto.
“Um dos aspectos importantes é que os resultados não se limitam à capacidade de controlar o tumor. Também precisamos considerar os possíveis efeitos do tratamento sobre a vida do paciente. As taxas relativamente baixas de complicações graves são encorajadoras, mas não eliminam os riscos, especialmente em pessoas que já receberam radiação na mesma região”, afirma Arthur Accioly Rosa, radio-oncologista, ex-presidente da SBRT e autor do estudo.
Apesar dos resultados favoráveis, os pesquisadores ressaltam que os estudos analisados apresentaram diferenças importantes nas características dos pacientes, nas doses utilizadas e no tempo de acompanhamento. Por isso, a certeza das evidências ainda é muito baixa, sendo necessários novos estudos clínicos para confirmar os benefícios, identificar os pacientes mais indicados e compreender os resultados a longo prazo.
Quando o câncer retorna
O reaparecimento do câncer de próstata após a radioterapia inicial pode ocorrer de diferentes formas. Em alguns pacientes, o tumor volta a crescer na própria próstata ou nas proximidades, situação chamada de recorrência local. Em outros, a doença pode atingir linfonodos, ossos ou outros órgãos.
Essa diferença é fundamental para definir o tratamento. Quando o câncer retorna apenas à região inicialmente tratada, uma nova radioterapia pode ser considerada em casos selecionados, após exames que confirmem a localização da doença e permitam avaliar os riscos da intervenção. Alternativas podem incluir cirurgia de resgate, tratamentos locais ou medicamentos, conforme as características de cada caso.
“Um aumento do PSA depois do tratamento não significa automaticamente que o paciente precisará de uma nova radioterapia. Primeiro, precisamos investigar se existe realmente uma recorrência, onde ela está localizada e se há sinais de disseminação. A partir dessas informações, a equipe médica pode discutir as alternativas disponíveis e os possíveis benefícios e riscos de cada uma”, explica Wilson José de Almeida Jr., radio-oncologista e presidente da SBRT.
A avaliação também considera o intervalo desde a primeira radioterapia, as doses anteriormente recebidas, a função urinária e intestinal e as condições gerais de saúde. Em determinadas situações, a equipe pode recomendar acompanhamento ou tratamentos sistêmicos, como a terapia hormonal, em vez de uma nova intervenção localizada.
Radioterapia e cirurgia
Outro estudo que contribui para compreender os avanços da radioterapia no câncer de próstata é o PACE-A, publicado na revista científica European Urology. Diferentemente do SPARE, que investigou pacientes com retorno do tumor após a radioterapia, o PACE-A comparou duas opções de tratamento inicial para homens com câncer de próstata localizado: cirurgia para retirada da próstata e radioterapia estereotáxica realizada em cinco sessões.
O estudo clínico, que contou com acompanhamento mediano de oito anos, envolveu 123 homens distribuídos aleatoriamente entre os dois tratamentos. Após cinco anos, entre os participantes que responderam aos questionários, 8% dos tratados com radioterapia relataram utilizar pelo menos um absorvente por dia para perdas urinárias, em comparação com 48% daqueles submetidos à cirurgia. Os resultados de acompanhamento de longo prazo também mostraram que 91% dos pacientes tratados com radioterapia permaneceram livres de falha bioquímica ou clínica após oito anos, ante 84% dos submetidos à cirurgia. A radioterapia também apresentou resultados mais favoráveis em relação à função sexual, embora os pacientes tratados com radiação tenham relatado mais sintomas intestinais. Os pesquisadores destacaram limitações relacionadas ao número de participantes e à quantidade de questionários respondidos.
Novembro Azul
A divulgação desses avanços ocorre em um contexto de elevada incidência do câncer de próstata no Brasil. Segundo o INCA, além dos 77.920 novos casos estimados anualmente para o período de 2026 a 2028, o país registrou 17.826 mortes pela doença em 2024, uma média próxima de 49 óbitos por dia.
A idade é um dos principais fatores de risco, com aumento expressivo da incidência e da mortalidade após os 60 anos. O histórico familiar também merece atenção, especialmente quando pai ou irmão receberam o diagnóstico antes dessa idade. Alterações hereditárias em genes como BRCA1 e BRCA2 podem elevar a predisposição, enquanto a obesidade está associada a maior risco de formas agressivas da doença.
O câncer de próstata pode não provocar sintomas nas fases iniciais. Quando presentes, alterações como dificuldade para urinar, diminuição da força do jato urinário e aumento da frequência das micções precisam ser investigadas, embora também possam ocorrer em doenças benignas da próstata.
Sobre a Sociedade Brasileira de Radioterapia
A Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), fundada em 1998, é uma associação civil, associativa e científica, sem fins lucrativos, que representa os médicos radio-oncologistas registrados no Brasil. Mais informações em: https://sbradioterapia.com.br/

