Cabedelo revive a mesma posse em 120 dias e expõe ciclo político fora do comum
15/04/2026 05:33
Redação ON Reprodução

Cabedelo vive um daqueles roteiros que parecem ficção, mas insistem em se repetir na vida real. Nesta quarta-feira, dia 15, o município assiste a mais uma posse interina no comando da prefeitura — uma cerimônia que, por si só, já seria excepcional. O que a torna ainda mais simbólica é o detalhe que salta aos olhos: exatamente no mesmo dia do mês, quatro meses atrás, a cidade já havia passado por cena idêntica.

Em 15 de dezembro, o então presidente da Câmara, Edvaldo Neto, assumia interinamente a prefeitura após a cassação do prefeito André Coutinho e da vice Camila Holanda. Era o início de um novo ciclo político, marcado por uma promessa de estabilidade depois de mais um abalo institucional. A solenidade, realizada às pressas, carregava o peso de uma cidade que tentava reorganizar sua própria estrutura de poder.

Agora, em 15 de abril, o roteiro se inverte — e se repete. O mesmo Edvaldo, que quatro meses atrás subia ao Executivo como solução provisória, deixa o cargo por decisão judicial poucos dias depois de ser eleito prefeito. No lugar dele, assume o vereador José Pereira, que naquela ocasião havia herdado a presidência da Câmara justamente pela ida de Edvaldo ao Executivo.

É um ciclo que se fecha e, ao mesmo tempo, se reinicia.

A repetição quase milimétrica de uma posse interina no intervalo de 120 dias expõe uma instabilidade institucional rara — algo que dificilmente se veria em qualquer outra cidade, em qualquer outro país, com tamanha coincidência de datas e personagens. Não se trata apenas de uma troca de comando, mas de um sistema que parece girar em torno das próprias crises, sem conseguir sair do lugar.

A nova posse foi determinada após decisão do Tribunal de Justiça da Paraíba, que impôs o afastamento do prefeito recém-eleito no âmbito de uma investigação sobre possíveis irregularidades na administração municipal. A comunicação oficial foi encaminhada ao Legislativo, que, diante da vacância do cargo, tomou as providências para garantir a continuidade administrativa.

A sessão que oficializa José Pereira como prefeito interino está marcada para a manhã desta quarta-feira, no plenário da Câmara. Com a mudança, a presidência da Casa também será reorganizada, seguindo a linha sucessória prevista.

Mais do que um ato formal, a cerimônia carrega um simbolismo incômodo: Cabedelo volta ao ponto de partida. Em quatro meses, a cidade assistiu duas vezes ao mesmo gesto — o de improvisar uma liderança para preencher um vazio de poder.

E, desta vez, a pergunta que fica não é apenas quem assume, mas até quando essa história continuará se repetindo.

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