O Busto de Tamandaré deixou de ser apenas um cartão-postal entre Tambaú e Cabo Branco para se consolidar como o principal ponto de concentração de grandes eventos da capital paraibana. Corridas, triatlos, encontros religiosos e shows têm transformado a área em uma espécie de arena a céu aberto, muitas vezes com públicos que passam da casa de centenas de milhares — e, em ocasiões maiores, chegam à casa do milhão de pessoas.
A consequência direta dessa ocupação intensa é um conflito cada vez mais evidente com os moradores da região. Quem vive nos edifícios ao redor relata perda de sossego, noites mal dormidas e uma rotina quebrada por eventos que começam ainda de madrugada, com som alto, buzinas, locutores e movimentação constante.
Neste domingo (3), o Cangaço Triathlon 2026 voltou a levar atletas e estrutura para o local, com largada no próprio busto. O evento se soma a uma sequência recente que tem irritado moradores. No dia 1º de maio, um encontro religioso começou por volta das quatro da manhã, reunindo caravanas e utilizando equipamentos de som desde antes do amanhecer. Dias antes, em 19 de abril, a Maratona de João Pessoa teve largada às 3h30, também no mesmo ponto, com milhares de corredores ocupando as ruas ainda no escuro.
Nas redes sociais, moradores passaram a divulgar vídeos mostrando buzinaços e manifestações de revolta. Há relatos de pessoas em recuperação de saúde, idosos e famílias com crianças que não conseguem descansar diante da frequência e do horário dessas atividades. A principal queixa não é contra um evento específico, mas contra a repetição quase semanal e, sobretudo, contra o início em horários considerados inadequados.

O impasse escancara um dilema urbano: de um lado, a cidade que busca se promover com eventos esportivos, culturais e religiosos, movimentando turismo e economia; de outro, o direito básico ao silêncio e à qualidade de vida de quem mora na região e paga impostos para viver ali.
Sem uma regulamentação mais clara sobre horários, limites de ruído e frequência de eventos, o risco é que o Busto de Tamandaré continue sendo palco não apenas de grandes encontros, mas também de um desgaste crescente entre poder público, organizadores e moradores — um conflito que já deixou de ser pontual e passou a fazer parte da rotina da orla de João Pessoa.
