Quando Carlo Ancelotti anunciou a convocação definitiva da Seleção Brasileira para a Copa, em maio, muita gente tratou a presença de Neymar como uma decisão exclusivamente técnica. Outros enxergaram ali o peso comercial de um dos maiores ativos de marketing do futebol mundial. Agora, surge um terceiro componente nessa equação: a política de bastidor.
Segundo revelou neste domingo o colunista Lauro Jardim, Francisco Mendes, filho do ministro Gilmar Mendes e hoje um dos personagens mais influentes nos corredores da CBF, teria confidenciado a interlocutores durante o chamado “Gilmarpalooza”, em Lisboa, que foi ele o responsável pela volta de Neymar à Seleção. A frase atribuída a ele é direta: “Quem convocou o Neymar fui eu”.
Se a declaração corresponde exatamente ao que foi dito ou se foi apenas uma forma de demonstrar influência política, talvez nunca se saiba. Mas o simples fato de ela existir já produz um efeito devastador sobre o discurso da autonomia técnica.
No dia seguinte à convocação, escrevemos que Neymar nunca esteve verdadeiramente fora da Seleção. A avaliação era simples: independentemente das limitações físicas, das lesões recentes e da falta de sequência em campo, ele continuava sendo um patrimônio comercial gigantesco para a CBF, patrocinadores, transmissões e para a própria indústria do futebol brasileiro.
A tese continua válida. Mas talvez estivesse incompleta.
Porque agora fica evidente que Neymar não representa apenas valor de mercado. Representa também valor político.
Quem é Francisco Mendes?
Embora não ocupe cargo estatutário de direção na CBF, tornou-se uma figura central no ambiente de poder da entidade. É vice-presidente da Federação Mato-Grossense de Futebol, dirige o IDP – parceiro da CBF Academy em um dos contratos mais relevantes da área educacional do futebol brasileiro -, lidera missões internacionais de dirigentes e integra a Comissão de Disciplina da FIFA por indicação da própria confederação.
Na prática, trata-se de alguém que circula entre os centros de decisão do futebol nacional e internacional com uma influência muito superior àquela descrita pelo cargo formal que ocupa.
Por isso, a revelação não deveria provocar discussão apenas sobre Neymar. O debate mais importante é outro: quem realmente toma as decisões na Seleção Brasileira?
Se uma convocação pode ser reivindicada por um dirigente de bastidor, ainda que em tom de brincadeira ou demonstração de prestígio, fica inevitável a dúvida sobre onde termina a autoridade do treinador e onde começa a influência dos grupos que orbitam o poder da CBF.
Neymar continua sendo um jogador capaz de mobilizar torcedores, audiência e patrocinadores. Mas a frase atribuída a Francisco Mendes sugere que sua volta à Seleção talvez tenha sido muito mais do que uma simples escolha futebolística.
E isso ajuda a explicar por que, apesar de todas as discussões técnicas, Neymar jamais pareceu realmente correr o risco de ficar fora da Copa do Mundo.