Após os depoimentos do ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, do ex-ministro da Justiça Anderson Torres e do general Augusto Heleno, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) interrogou, na tarde desta terça-feira (10/6), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele foi ouvido pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da ação que apura uma suposta trama golpista para mantê-lo no poder após a derrota nas eleições de 2022.
Durante o depoimento, Bolsonaro negou qualquer participação em articulações para um golpe de Estado e classificou os atos de 8 de janeiro de 2023 — quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas — como uma “baderna”.
Em tom descontraído, o ex-presidente chegou a fazer uma brincadeira com Moraes, convidando o ministro para ser seu vice em 2026, arrancando risos da plateia e do próprio magistrado. A resposta de Moraes, porém, foi seca e direta: “Declino”.
Negativas e recuos
Bolsonaro reconheceu que “hipóteses” sobre o resultado eleitoral foram discutidas com os comandantes das Forças Armadas, mas alegou que tudo ocorreu “dentro das quatro linhas da Constituição”. Segundo ele, as conversas foram mais um “desabafo” do que uma conspiração concreta.
“Não tinha clima, não tinha oportunidade, não tínhamos uma base minimamente sólida para se fazer qualquer coisa”, afirmou.
Questionado por Alexandre de Moraes sobre o descrédito às urnas eletrônicas e uma reunião ministerial ocorrida em julho de 2022, Bolsonaro disse que sempre defendeu o voto impresso e citou episódios em que outros políticos, como o atual ministro do STF Flávio Dino, também teriam questionado o sistema eletrônico de votação.
O ex-presidente voltou a criticar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por, segundo ele, cercear sua liberdade de expressão durante a campanha de 2022, ao impedir o uso de imagens negativas contra Lula e de conteúdo favorável a seu próprio governo.
Desculpas e minuta golpista
Sobre a reunião de julho de 2022, na qual criticou duramente ministros do STF e do TSE, Bolsonaro disse que o encontro não era para ser gravado e que seus comentários foram apenas “retórica do momento”. Pediu desculpas aos ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin:
“Se fosse outros três ocupando, teria falado a mesma coisa. Então, me desculpe. Não tinha intenção de acusar qualquer desvio de conduta”, disse.
Bolsonaro também negou ter feito qualquer modificação na chamada “minuta golpista”, que previa a prisão de Alexandre de Moraes e a anulação do resultado das eleições. O documento foi citado no dia anterior por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente, que afirmou que Bolsonaro chegou a “enxugar” o texto. “Não procede o enxugamento”, rebateu.
Tom político e defesa
Em trechos do depoimento, o ex-presidente adotou um tom político, citando obras de seu governo e relembrando sua trajetória desde os tempos de vereador no Rio de Janeiro.
Após ser questionado por Moraes, Bolsonaro respondeu ao ministro Luiz Fux e, em seguida, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. À PGR, negou que tenha incentivado qualquer levante popular para contestar o resultado das eleições. Repetiu que os questionamentos ao sistema eletrônico de votação não começaram com ele, citando novamente Flávio Dino e o ex-governador Leonel Brizola.
Gonet também perguntou se iniciativas como a proposta de prisão de autoridades e anulação das eleições poderiam ser consideradas “dentro das quatro linhas da Constituição”. Bolsonaro respondeu que nunca houve “pontapé inicial” para um golpe, apenas conversas que classificou como “hipóteses”.

