quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Aposta, bravata e palanque: quando a política vira jogo de risco
26/02/2026 15:48
Redação ON Reprodução

A pré-campanha ao governo da Paraíba ganhou nesta semana um ingrediente pouco comum: aposta pública entre deputados. Nada de cafezinho discreto ou promessa sussurrada ao pé do ouvido. A coisa foi dita em voz alta.

O deputado estadual Felipe Leitão (MDB), um dos coordenadores da pré-campanha de Cícero Lucena, resolveu colocar o próprio mandato em jogo — ao menos no campo da retórica. Disse que abre mão da tentativa de reeleição caso Lucas Ribeiro ultrapasse Cícero nas pesquisas. Do outro lado, Eduardo Carneiro (Solidariedade) aliado de Lucas, sustenta que o vice-governador chegará a junho liderando os levantamentos.

Não é todo dia que um parlamentar transforma pesquisa em roleta e mandato em ficha de cassino.

A história chama atenção por dois motivos. Primeiro, porque aposta eleitoral não é instrumento jurídico, é instrumento simbólico. Não há contrato, não há cláusula, não há cartório. É um gesto político. Segundo, porque esse tipo de declaração costuma funcionar muito mais como demonstração de confiança para a própria militância do que como compromisso propriamente executável.

Na prática, cobrar o cumprimento de uma promessa assim é tarefa quase impossível. Política não é ferro e fogo. É narrativa, ambiente, circunstância. Se a pesquisa variar um ponto dentro da margem de erro, vale? Se for instituto A ou instituto B? Se um ultrapassar por décimos? A aposta, como quase tudo na pré-campanha, mora na zona cinzenta.

A tradição brasileira até registra bravatas eleitorais, mas raramente compromissos formais desse tipo prosperam. Já houve candidatos que prometeram raspar a cabeça se perdessem, outros que juraram abandonar a vida pública, alguns que disseram que não disputariam mais nada. Quase sempre, a memória política é mais curta do que a promessa.

Na Paraíba, então, o histórico mostra que alianças mudam, cenários se reconfiguram e pesquisas sobem e descem como maré. Transformar esse movimento em cláusula de renúncia soa mais como performance de confiança do que como decisão irrevogável.

Felipe Leitão tenta passar a mensagem de que Cícero está sólido. Eduardo Carneiro aposta na virada de Lucas. Ambos falam para seus públicos, reforçam trincheiras e elevam o tom da disputa que ainda nem começou oficialmente.

No fim das contas, a aposta cumpre seu papel: gera manchete, aquece o debate e injeta adrenalina na pré-campanha. Se algum dia precisará ser cobrada, é outra história.

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