João Pessoa, segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Antes de Nenê, a Paraíba já tinha seu “vovô do futebol”: Pedro, da Perilima, lembra dele?
24/08/2026 16:32
Redação ON Reprodução

Aos 45 anos, Nenê continua mostrando que idade e futebol podem conviver muito bem. No último sábado, no Estádio Almeidão, o camisa 10 marcou um golaço na vitória do Botafogo-PB por 3 a 1 sobre o Guarani, resultado que garantiu a classificação antecipada do Belo para a próxima fase da Série C do Campeonato Brasileiro.

A atuação voltou a colocar o veterano no centro das atenções nacionais. Com mais de mil jogos e centenas de gols na carreira, Nenê está sendo reverenciado pela longevidade, mas principalmente porque não permanece em atividade apenas para aumentar estatísticas. Aos 45 anos, ele joga, participa, dá assistências, marca gols e segue sendo decisivo.

O desempenho do camisa 10 do Belo tem provocado comparações com o japonês Kazuyoshi Miura, o interminável “King Kazu”. Aos 59 anos, Miura continua atuando profissionalmente e atravessa a 42ª temporada de uma carreira iniciada em 1986, no Brasil. O japonês passou por clubes como Santos, Palmeiras, Coritiba, Genoa e Yokohama FC, além de ter defendido a seleção de seu país.

Miura e Nenê, dois vôvôs reconhecidos internacionalmente

A incrível história de “seu Pedro”

Nenê e Miura são, com justiça, apresentados como os grandes “vovôs do futebol”. Mas a Paraíba conhece essa história há muito tempo. Bem antes de o assunto virar destaque nacional, Pedro Ribeiro de Lima, o folclórico Pedro da Sorda, já desafiava o calendário nos gramados paraibanos.

Fundador, presidente, capitão e jogador da Perilima, clube de Campina Grande, Seu Pedro entrou em campo profissionalmente pela última vez em 2014, aos 66 anos. E não foi apenas para aparecer na fotografia, dar um toque na bola e pedir substituição. Na estreia da Perilima na Segunda Divisão do Campeonato Paraibano, contra o Serrano-PB, permaneceu os 90 minutos no gramado.

Miura tem centenas de gols. Nenê também construiu uma carreira recheada de bolas na rede. Seu Pedro preferiu ser mais econômico: marcou apenas um gol como profissional. Mas escolheu muito bem a vítima.

Foi em 2007, aos 58 anos, numa partida contra o Campinense. A Perilima perdeu por 5 a 1, mas pouca gente se lembra dos cinco gols da Raposa. O lance que atravessou os anos foi justamente o gol de honra da Perilima, marcado de pênalti pelo presidente e jogador do clube.

E o goleiro não era qualquer um. Era Jailson, que anos depois se tornaria campeão brasileiro e um dos destaques do Palmeiras. Seu Pedro partiu para a cobrança, deslocou o goleiro e colocou a bola na rede. Foi o primeiro e único gol de sua carreira profissional.

Um gol em muitos anos de futebol. Pode parecer pouco, mas ninguém poderá acusá-lo de ter desperdiçado a oportunidade. Quando finalmente marcou, escolheu um goleiro que chegaria ao Palmeiras e transformou uma derrota por goleada em uma história contada até hoje.

Em 2017, já aos 68 anos, Pedro da Sorda ainda pretendia disputar novamente a Segunda Divisão do Campeonato Paraibano. Seu registro, porém, não foi liberado. Na época, dirigentes locais atribuíram o impedimento à idade, versão apresentada também pelo próprio jogador.

A CBF posteriormente negou que tivesse vetado Seu Pedro por considerá-lo velho. A entidade explicou que o Regulamento Geral de Competições não estabelecia idade máxima para jogadores profissionais e afirmou que uma eventual impossibilidade de registro estaria relacionada a outras pendências. Na prática, entretanto, Pedro da Sorda não conseguiu voltar aos gramados.

A notícia provocou lágrimas no veterano, que garantia estar fisicamente preparado para continuar jogando.

“Estão achando que eu estou muito velho para jogar futebol. Eu lamento. Porque, quando vou ao médico, meus exames sempre saem bons”, desabafou na época.

Nenê tem mais de mil partidas. Miura atravessou cinco décadas jogando profissionalmente. Pedro da Sorda acumulou poucos jogos, muitas derrotas e apenas um gol. Mas disputou uma partida profissional inteira aos 66 anos e ainda tentou voltar aos gramados aos 68.

Nenê é o Vovô Garoto. Miura é o Rei Kazu. E Pedro da Sorda é o patriarca paraibano da bola: o homem que fez apenas um gol como profissional, mas conseguiu uma proeza ainda mais difícil — continuar jogando quando quase todo mundo de sua geração já havia pendurado as chuteiras fazia décadas.

  • Colaborou o jornalista Léo Alves, comentarista da CBN-PB.

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