quarta-feira, 22 de julho de 2026
“Alô, aqui é do banco”: a indústria silenciosa do golpe que transforma telemarketing em crime
12/03/2026 05:37
Golpe do cartão, Reprodução

“Alô, senhor? Aqui é do setor de segurança do banco Santander. Identificamos uma tentativa de compra suspeita no valor de R$ 3.800 em uma loja de eletrônicos.”

A voz é calma, treinada e passa segurança. O roteiro é impecável. Para quem atende, a impressão é de que está falando com um funcionário de banco tentando evitar um prejuízo. Na verdade, quase sempre é o contrário.

Se você tem um telefone celular – e hoje são mais de 220 milhões de linhas no Brasil – as chances de já ter recebido uma ligação como essa são enormes. O chamado “golpe da falsa central de segurança”, também conhecido como golpe do cartão clonado, tornou-se uma epidemia silenciosa. Uma indústria do crime que funciona todos os dias, movimenta bilhões e, em muitos casos, transforma simples atendentes em peças de uma engrenagem criminosa.

A lógica do golpe é simples e eficiente. O suposto atendente informa que há uma compra suspeita. Em seguida, oferece ajuda para “cancelar a transação”. Aos poucos, conduz a vítima a fornecer dados do cartão, senhas ou a realizar transferências supostamente necessárias para bloquear o prejuízo. Quando a vítima percebe, o dinheiro já foi embora.

Prejuízo de bilhões

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o sistema financeiro investe cerca de R$ 4 bilhões por ano em segurança digital. Mesmo assim, o elo mais vulnerável continua sendo o fator humano. As fraudes baseadas em engenharia social – quando a vítima é manipulada psicologicamente – provocam prejuízos que superam os R$ 2,5 bilhões por ano.

Por trás dessas ligações não estão apenas indivíduos isolados, mas estruturas organizadas. Em muitas cidades funcionam verdadeiras centrais telefônicas clandestinas. Os criminosos utilizam programas que falsificam o número exibido no telefone da vítima, fazendo a ligação parecer vir do número oficial do banco.

Há também outro detalhe curioso: o cenário sonoro.

Ao fundo, muitas vezes se ouvem vozes, teclados, conversas e barulho de escritório. Tudo cuidadosamente criado para simular um call center legítimo.

Foi dentro desse roteiro que uma dessas ligações chegou à redação de O Norte Online. Do outro lado da linha, uma atendente insistia que um cartão do Santander havia sido clonado e que seria necessário realizar alguns procedimentos de segurança. A conversa seguia normalmente até surgir uma resposta inesperada:

“Minha senhora, eu nunca tive conta no Santander. Como é que meu cartão foi clonado?”

A reação foi instantânea. Silêncio. Alguns segundos depois, a ligação foi encerrada.

Não houve tentativa de explicar, discutir ou contornar a contradição. Nas centrais de golpe, a regra é simples: ao primeiro sinal de desconfiança, encerra-se a chamada e passa-se para o próximo número da lista automática.

É uma operação baseada em volume. Quanto mais ligações, maior a chance de encontrar alguém que acredite na história.

Do outro lado da linha

Mas existe um aspecto pouco discutido nesse tipo de crime: quem é a voz do outro lado da linha? Nem sempre se trata de um criminoso clássico. Muitas vezes é apenas mais uma peça dentro de uma linha de montagem de fraudes.

Imagine uma jovem de vinte e poucos anos, moradora da periferia de uma grande cidade. Talvez já tenha trabalhado em um call center legítimo ou em alguma loja do comércio, recebendo um salário mínimo que mal cobre despesas básicas.

Em busca de emprego, ela chega a um escritório improvisado com computadores, headsets e fileiras de mesas. O treinamento que recebe não é sobre atendimento ao cliente, mas sobre como conduzir vítimas, ganhar confiança e aplicar golpes.

Desde o primeiro dia ela sabe que está cometendo um crime. Mas a necessidade muitas vezes fala mais alto.

Para suportar a rotina de enganar dezenas ou centenas de pessoas todos os dias, é preciso passar por um processo gradual de distanciamento moral. As vítimas deixam de ser pessoas e passam a ser apenas “alvos”, números em uma planilha de desempenho.

É a banalização do mal adaptada à era digital.

Também não existe qualquer perspectiva de futuro. Não há carteira assinada, benefícios ou carreira. Apenas a expectativa de sobreviver mais um mês dentro de uma atividade ilegal da qual é difícil sair.

Enquanto isso, o prejuízo se multiplica do outro lado da linha.

Por isso, especialistas insistem em um alerta simples e direto: bancos nunca pedem senha, código de token ou transferências por telefone para cancelar compras suspeitas. Diante de uma ligação desse tipo, a orientação é desligar imediatamente e entrar em contato com o banco por meio do número oficial.

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