A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu por unanimidade tornar Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado. Mas não foi apenas a decisão histórica que marcou a semana: o relator do caso, Alexandre de Moraes, adotou uma medida inédita que pode encurtar o caminho entre a denúncia e uma eventual condenação — e, em última instância, a prisão do ex-presidente.
Pela primeira vez na história da Corte, ministros da Turma acompanharam em tempo real, por videoconferência, os depoimentos de testemunhas de defesa e acusação. Moraes não apenas autorizou a presença remota, como também permitiu que os colegas fizessem perguntas diretas aos depoentes — uma movimentação incomum, que demonstra o grau de gravidade atribuído ao caso.
Estiveram conectados à sessão virtual Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, presidente da Primeira Turma. O ministro Flávio Dino delegou a um assessor. Entre os que acompanharam, Fux foi o único a intervir diretamente, questionando o ex-coordenador de inteligência da PRF, Adiel Pereira Alcântara, sobre reuniões internas da corporação durante o processo eleitoral de 2022. Um movimento claro para refinar elementos da trama golpista.
O gesto de Moraes não é apenas simbólico: antecipar o envolvimento dos ministros nas oitivas é uma forma de acelerar o convencimento da Corte. Como todos os presentes participarão do julgamento definitivo, o fato de estarem diretamente expostos às provas desde a fase de instrução pode reduzir a duração do processo e evitar contestações futuras sobre nulidade ou vícios procedimentais.
Há quem veja nessa abertura um sinal de estratégia política do relator, para manter o caso na Primeira Turma e não no plenário — onde as decisões são mais imprevisíveis. Fux, inclusive, já manifestou que preferia que o julgamento ocorresse com os 11 ministros. Moraes, no entanto, mantém o controle da narrativa e da tramitação.
Na prática, quanto mais elementos forem consolidados ainda na fase de instrução, mais sólido será o processo e mais difícil será alegar perseguição ou inconsistência jurídica na hora da sentença.
A imprensa, diferentemente dos ministros, não teve acesso direto às oitivas — acompanhou os depoimentos por meio de um telão, sem áudio e sem imagens. O controle da exposição midiática, porém, não impediu que a movimentação do Supremo soasse como uma marcha institucional rumo ao fechamento do cerco.
Não é exagero afirmar que o processo avança em um ritmo raro para os padrões da Corte. A denúncia contra Bolsonaro foi recebida por unanimidade. Há robustez nas provas, segundo os ministros. E agora, com ministros diretamente envolvidos na colheita das provas, o STF sinaliza que não está disposto a empurrar com a barriga o julgamento da tentativa de golpe.

