“Acabou, acabou! Arruma a mala, Janja, arruma a mala!” O empresário Fillipe Félix, proprietário de 90% da SAF do Botafogo-PB, abriu sua manifestação após o primeiro turno como quem anunciava um resultado definitivo. Faltava, porém, uma etapa indispensável: o segundo turno. Neste domingo, os brasileiros reelegeram justamente o presidente que ele já havia despachado do Palácio do Planalto.
A gravação reúne mais do que uma previsão eleitoral malsucedida. Entre a comemoração antecipada, acusações sem provas apresentadas e ataques pessoais, Félix oferece um retrato do sentimento de “já ganhou” que marcou manifestações de apoiadores de Flávio Bolsonaro. Não é possível atribuir a derrota do candidato a uma causa isolada. Mas o empresário expressou com clareza a arrogância de tratar milhões de votos ainda por disputar como mera formalidade.

A eleição que ainda não tinha acabado
Ao afirmar que os brasileiros haviam “escorraçado” Lula e que restara “meia dúzia de gato pingado”, Félix substituiu a leitura do resultado eleitoral pela linguagem da hostilidade. O presidente continuava na disputa. Seus eleitores também continuavam existindo — e com o mesmo direito de decidir o futuro do país.
Há outra confusão na comemoração dos “24 anos” que estariam terminando. O período transcorrido desde a primeira eleição de Lula, em 2002, não corresponde a uma permanência ininterrupta dele ou do PT no poder. Entre os governos petistas, o Brasil foi presidido por Michel Temer e Jair Bolsonaro. Apagar esse intervalo ajuda o discurso, mas prejudica a compreensão dos fatos.
Na Paraíba, o descompasso entre a fala do empresário e a escolha dos eleitores ficou especialmente evidente. Lula recebeu 67,46% dos votos válidos no segundo turno, segundo o TRE-PB. É uma maioria expressiva, embora não seja unanimidade nem permita presumir o voto de cada torcedor do Botafogo.
Félix tem direito de apoiar qualquer candidato. A questão é a responsabilidade de quem dirige um clube sustentado também pelo vínculo com uma torcida plural. Ao reduzir o eleitorado adversário a um grupo desprezível, o empresário corre o risco de hostilizar pessoas das quais espera presença no estádio, consumo e confiança. A preferência partidária é legítima; o desprezo por quem vota diferente revela imaturidade.
Pobreza, emprego e acusações sem demonstração
A afirmação de que Lula “odiava os pobres” é um julgamento sobre intenções, não um dado verificável. Já a ideia de que os benefícios sociais serviram apenas para conservar a miséria pode ser confrontada com indicadores. Segundo o IBGE, entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza. No mesmo levantamento, o nível de ocupação alcançou o maior patamar da série histórica iniciada em 2012. Esses resultados não eliminam os problemas brasileiros, mas contradizem uma descrição que ignora avanços tanto na renda quanto no trabalho.
Félix também atribuiu o desempenho dos primeiros governos Lula à “sorte” de um suposto “boom tecnológico” em 2008. A explicação passa ao largo de um acontecimento central daquele ano: a crise financeira internacional. Reduzir anos de política econômica a uma frase sobre sorte exige bem mais demonstração do que a oferecida na gravação.
O mesmo vale para a afirmação de que o Brasil teria o dobro de empresas endividadas em relação a quatro anos antes. Na fala transcrita, não aparecem fonte, período de referência ou definição do indicador. Empresas endividadas e empresas inadimplentes, por exemplo, não são necessariamente a mesma coisa. Sem esses elementos, o número não pode ser tratado como informação comprovada.
Mais graves são as acusações de que Lula seria dono de uma companhia de proteína animal e “o homem mais rico do Brasil”. Félix não apresenta documentos que sustentem essas afirmações. Alegações sobre uma suposta fortuna bilionária de Lula circulam há anos e já foram desmentidas por verificadores. A expressão “todo mundo sabe” não substitui evidência.
O ataque a Janja e o preconceito com os eleitores
Ao chamar Janja de mulher do “mais baixo nível”, o empresário abandona qualquer discussão sobre políticas públicas. Trata-se de uma desqualificação pessoal, com conteúdo misógino, que procura diminuir uma mulher por sua relação afetiva.
Também é incorreta a história de que Lula a teria conhecido “na porta de cadeia”. A biografia da primeira-dama registra que eles se conheceram nas Caravanas da Cidadania, nos anos 1990, muito antes da prisão do petista. Janja é socióloga formada pela Universidade Federal do Paraná e teve trajetória profissional em Itaipu. Sua dignidade, evidentemente, não depende do diploma: nenhuma mulher precisa apresentar currículo para merecer respeito.
A referência a uma votação de “90% nos presídios” também aparece sem levantamento que a sustente. E o segundo turno trouxe um resultado que expõe a fragilidade desse recurso retórico: na seção da Papudinha, Flávio recebeu 81 votos, contra 74 de Lula. Esse placar local não representa o conjunto dos estabelecimentos prisionais brasileiros e tampouco autoriza associar Flávio ao crime. Pela mesma razão, votos recebidos por Lula não demonstram vínculo com traficantes ou facções.
As contas que o empresário precisa explicar
Enquanto comemorava uma mudança de governo que não aconteceu, Félix enfrentava cobranças concretas no Botafogo-PB. O empresário confirmou atrasos em direitos de imagem e negociava a venda de suas ações na SAF. É necessário, entretanto, distinguir os números: os R$ 19 milhões divulgados pelo ge correspondem à projeção de resultado negativo anual apresentada pelo próprio gestor, e não a um montante comprovado de salários e indenizações vencidos.
A manifestação política chegou a motivar uma moção de repúdio aprovada pela Câmara Municipal de João Pessoa. Segundo a reportagem sobre a decisão, os vídeos foram posteriormente apagados das redes sociais.
O contraste permanece: para o país, Félix anunciou uma solução antes de os eleitores concluírem a escolha; para o clube, precisa apresentar soluções acompanhadas de recursos, prestação de contas e compromissos cumpridos. Na política, gritou “acabou” antes da hora. No Botafogo, a torcida ainda espera saber como termina a história que ele prometeu construir.