Há menos de um mês, na manhã de 30 de maio, a Livraria do Luiz, no Mag Shopping, viveu uma cena que dizia muito mais do que um simples lançamento de livro. Cercado por jornalistas, escritores, professores, políticos e admiradores da cultura paraibana, Gonzaga Rodrigues emocionou-se ao apresentar a reedição da obra dedicada a José Maria dos Santos. A livraria lotada era uma demonstração espontânea de respeito e gratidão a quem, há décadas, se confunde com a própria história do jornalismo e da literatura da Paraíba. O que mais impressionava, porém, era a lucidez, a memória afiada e a paixão intacta de um homem que, aos 93 anos, continua fazendo planos e cultivando novos projetos.

Neste domingo, Gonzaga Rodrigues completa 93 anos de vida e impressionantes 75 anos de jornalismo. Desde que ingressou em O Norte e A União, em 1951, construiu uma trajetória que o transformou em referência obrigatória da crônica paraibana. Autodidata, nascido em Alagoa Nova, foi repórter, revisor, tradutor, ensaísta, presidente da Associação Paraibana de Imprensa, da Academia Paraibana de Letras e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba. Sempre preferiu dizer que sua verdadeira universidade foram os livros.
Considerado o maior cronista paraibano da atualidade, Gonzaga segue em plena atividade. Seus textos continuam sendo publicados em A União, no Ambiente de Leitura Carlos Romero e, semanalmente, às quartas-feiras, no Portal O Norte Online. São crônicas extraídas de obras já publicadas, preciosos retratos de uma João Pessoa que ainda guardava o ritmo tranquilo, as relações humanas e a paisagem de uma cidade que o avanço imobiliário e a vocação turística foram modificando ao longo do tempo. Cada texto é uma viagem afetiva e um testemunho vivo de uma Paraíba que resiste nas palavras do cronista.
Inspirado por mestres como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Humberto de Campos, Gonzaga nunca abandonou o sonho de ser poeta. Talvez tenha conseguido algo ainda maior: transformar a crônica em patrimônio afetivo dos paraibanos. Aos 93 anos, continua com o olhar sereno, a voz mansa e a elegância dos sábios que aprenderam a atravessar o tempo sem perder a curiosidade. E é justamente por isso que o lançamento de um novo livro, há poucas semanas, não foi uma celebração do passado. Foi a prova de que Gonzaga Rodrigues permanece escrevendo o presente e sonhando com o futuro. Afinal, os verdadeiros imortais não vivem apenas nas academias. Vivem nas palavras que continuam deixando para as próximas gerações.

