A visita do deputado federal Cabo Gilberto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, neste sábado, em Brasília, foi apresentada publicamente como um gesto de solidariedade e preocupação com a saúde do ex-presidente. No entanto, o contexto político que antecedeu o encontro levanta dúvidas sobre se a agenda se limitou apenas ao tema humanitário, como afirmou o parlamentar.
Após a visita, Cabo Gilberto descreveu um quadro que classificou como grave. “Situação muito complicada, muito difícil. O presidente deveria estar em casa, um idoso com mais de 70 anos, vai completar 71 agora, com diversas cirurgias, soluçando bastante. Ele não tem as mínimas condições físicas de continuar preso”, afirmou. O deputado também disse que a conversa teve foco no alinhamento da oposição no Congresso. “Assumi a liderança da oposição, escutei todas as determinações do presidente Bolsonaro para o nosso comportamento lá na Câmara Federal”, declarou.
Cabo Gilberto insistiu que não houve qualquer discussão sobre o cenário eleitoral na Paraíba. “A questão eleitoral da direita na Paraíba está resolvida com o nome de Efraim Filho para o governo. A agenda aqui foi tratar da situação do presidente Bolsonaro”, disse o parlamentar, acrescentando que Bolsonaro mandou “um abraço para toda a Paraíba e para todo o Brasil” e pediu orações.
Nos bastidores, porém, a versão oficial não encerra as especulações. Antes mesmo da visita, veículos da grande imprensa apontavam que Bolsonaro pretendia tratar da composição da chapa da direita na Paraíba, especialmente da vaga ainda em aberto ao Senado. Hoje, o grupo já tem Efraim Filho colocado para o governo e Marcelo Queiroga como um dos nomes ao Senado, faltando um segundo candidato com densidade eleitoral. Nesse cenário, o nome de Cabo Gilberto surge como alternativa natural, por ser uma das principais lideranças bolsonaristas no estado.
O tom humanitário adotado pelo deputado também contrasta com o contexto recente, em que uma perícia médica oficial concluiu que Bolsonaro tem condições de permanecer preso. Isso não impede a defesa política feita por aliados, mas relativiza o argumento de urgência médica apresentado por Cabo Gilberto.
A leitura de bastidor é de que o deputado evita, por ora, assumir publicamente qualquer compromisso eleitoral mais ambicioso. Uma candidatura ao Senado representaria um risco alto, com chances reais de derrota em um tabuleiro já ocupado por nomes fortes. Ao se limitar ao discurso de solidariedade e alinhamento político, Cabo Gilberto preserva margem de manobra enquanto a direita paraibana segue sem fechar completamente sua chapa para a disputa majoritária.