A insistência do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, em dizer que continuará votando em João Azevêdo para o Senado — mesmo após o rompimento político com o governador — começa a causar desconforto entre os aliados mais próximos e risco real à construção da chapa que ele pretende liderar em 2026.
Desde o início do rompimento, João Azevêdo reagiu com ironia à promessa de “gratidão eterna” de Cícero. “Ninguém pode servir a dois senhores”, disse o governador, ainda em agosto, ao ser questionado sobre a possibilidade de receber o voto do ex-aliado. A frase soou como um recado direto de que não há espaço para meio-termo na disputa que se desenha entre a base governista e a futura candidatura de Cícero.
O vice-governador Lucas Ribeiro, pré-candidato natural à sucessão estadual, também tratou o assunto com sarcasmo. No fim de semana, durante um evento em Campina Grande, Lucas brincou: “É mais fácil acreditar em Papai Noel do que acreditar que Cícero vá votar em João Azevêdo depois de romper com ele.”
Apesar disso, Cícero tem insistido no discurso de lealdade e gratidão, o que muitos interpretam como uma tentativa de suavizar o rompimento e mostrar que “saiu sem brigar”. A estratégia, no entanto, começou a gerar ruídos dentro da própria aliança que o prefeito tenta construir.
Nesta segunda-feira (13), o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que pretende disputar a reeleição em uma chapa encabeçada por Cícero, deu o recado mais duro até agora: é hora de encarar a realidade. Em entrevista ao Correio Debate, Veneziano cobrou a definição de um segundo nome para o Senado e disse que a indefinição já está lhe causando prejuízos políticos.
“Não tendo esse nome, eu já sinto alguns prejuízos. Isso pesa”, afirmou o senador, explicando que a falta de clareza atrapalha o diálogo com lideranças e eleitores. “As pessoas ficam livres para buscar do outro lado”, completou.
Veneziano ainda revelou sua preferência pessoal para a segunda vaga ao Senado: o padre Fabrício, que já admitiu ter sido sondado por Cícero para ingressar na política. O problema é que, enquanto o prefeito continuar alimentando o discurso de “apoio” a João Azevêdo, o MDB teme perder espaço e coerência diante de aliados e eleitores.
Entre a gratidão e a estratégia, Cícero Lucena começa a descobrir que o discurso de fidelidade ao governador pode custar caro à sua própria candidatura — e à paciência dos seus novos companheiros de chapa.