A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos marca um daqueles episódios que dividem o mundo entre o alívio imediato e a preocupação de longo prazo. A queda de um governante ilegítimo, sustentado por fraude eleitoral, repressão e colapso econômico, não desperta saudade. Ainda assim, a forma como a operação foi conduzida levanta questões que vão muito além da Venezuela. Entre ganhos táticos e custos estratégicos, a ação expõe dilemas clássicos da política internacional.
O balanço possível passa por reconhecer que há avanços concretos, mas também riscos profundos.
Cinco pontos positivos da operação
1. fim de um regime personalista e ilegítimo
A retirada de Maduro do poder encerra um ciclo marcado por fraude eleitoral, perseguição política, repressão violenta e destruição econômica. Para milhões de venezuelanos, isso representa o colapso de um sistema que já não oferecia qualquer horizonte democrático.
2. enfraquecimento das estruturas autoritárias
A captura do principal líder do regime desmonta, ao menos parcialmente, o eixo central de comando que articulava forças armadas cooptadas, milícias e redes de corrupção ligadas ao Estado.
3. abertura de uma janela para a transição política
Diferentemente de outros países em colapso, a Venezuela possui uma oposição organizada, com reconhecimento eleitoral e apoio social. Isso cria uma possibilidade real de transição institucional, ainda que complexa.
4. impacto simbólico regional
A operação envia um sinal claro a regimes autoritários que se mantêm no poder por meios ilegais: a perpetuação indefinida de ditaduras não é um dado imutável da geopolítica.
5. interrupção de atividades ilícitas associadas ao Estado
O regime de Maduro esteve diretamente ligado ao narcotráfico, ao contrabando e a economias ilegais. A queda do comando central pode dificultar, ao menos temporariamente, essas operações.
Cinco pontos negativos da operação
1. violação do Direito Internacional
A ação foi unilateral, extraterritorial e sem respaldo claro de organismos multilaterais. Esse precedente enfraquece normas internacionais criadas justamente para conter abusos de poder entre Estados.
2. transformação da exceção em método
Quando operações desse tipo passam a ser celebradas como solução padrão, abre-se espaço para intervenções futuras baseadas mais em conveniência política do que em critérios estáveis.
3. risco de vácuo de poder
A queda de um regime personalista não dissolve automaticamente as redes que o sustentavam. Militares cooptados, milícias armadas e economias ilícitas continuam existindo e podem disputar o controle do país.
4. déficit de legitimidade da transição
Uma mudança imposta de fora, ainda que contra um ditador, gera dúvidas sobre quem governa no dia seguinte, com qual autoridade e sob quais regras. Democracia imposta não é sinônimo de democracia consolidada.
5. desgaste da ordem internacional
Ao agir fora dos marcos legais, os Estados Unidos fragilizam o sistema que dizem proteger. Isso oferece argumento para que outros países adotem práticas semelhantes, substituindo normas por decisões ad hoc.
O desafio que começa agora
O verdadeiro teste da operação não está na eficiência militar, mas no que vem depois. Quem governa a Venezuela? Com base em quais instituições? Sob qual pacto político? A história recente mostra que libertações sem governança costumam apenas adiar novas crises.
Como alertou a comunidade internacional, inclusive lideranças europeias, a transição só será legítima se for pacífica, democrática e respeitosa às regras internacionais. Democracias não nascem de operações especiais. Nascem de pactos, previsibilidade institucional e aceitação das regras, inclusive por quem perde.
A captura de Maduro resolve um problema evidente, mas cria outros igualmente complexos. Entre a audácia e a responsabilidade, o julgamento final da ação não dependerá da força empregada, mas da capacidade de transformar poder em ordem. É esse equilíbrio que definirá se a Venezuela caminha para a reconstrução ou para um novo impasse de consequências imprevisíveis.

